
Toda a redenção é vã.
"cuando todos escriben la palabra sabida
quisiera no saber la mía
escribir como quien habla por señas”
(Mario Benedetti, Preguntas al azar)



Escondiam suas senhas nas mangas das palavras para sacá-las, poderosos ases, no silêncio da noite grande ou na claridade parca da madrugada. Encontravam, no avesso dos bolsos internos, os mantras com que se deliciaram um dia. Costurados. A linha resistente da distância fazendo-os mais fortes, aprisionados voluntariamente e para sempre aos forros do tempo que cumpririam ainda. Caminhavam através da chuva e molhavam lábios, faces, cílios. Deixavam-se encharcar mais. Ah, a chuva. Não pensavam em reminiscência, essa coisa única que resta aos velhos sem saída. Antes mantinham viva, apesar da vida, a lembrança. Como se fora hoje. Como será amanhã, o que ontem, apenas ontem, foi. (Texto: CeciLia Cassal - Imagem: O beijo, Gustav Klimt)
O Prêmio Arte y Pico foi concedido a este satélite pela Mara Faturi
O pai tinha umas vezes(Texto: CeciLia Cassal - Imagem, daqui)
Nem que cessassem os tambores, se apagassem todas as luzes, nem que as cores emudecessem assim, de um momento para o outro. Não esqueceria. Nem que todos os deuses se dessem por derrotados e seus santos nomes fossem profanados, nem que os tempos houvessem chegado ao fim. Não esqueceria. Podia que o mundo desabasse de seus precipícios de desejo e saudade. Podia até. Que as verdades todas fossem abolidas. Que as tardes se sucedessem sem luares, sem auroras, sem manhãs. Não esqueceria. Mesmo que fizesses do teu silêncio o preciso alarde sobre o que nem sabes. Não esqueceria. Nem se me pedisses. Nem.
“- Eu nunca fui tão silêncio (...) Dobrar-se de dor e não poder gemer. Eu nunca morri com tanta eficácia. Depois da treva, há mais treva, mais treva, mais treva...”(Texto: CeciLia Cassal)
Eu não tenho a calma dos tempos contados, tenho medo. Um medo que descubro aos poucos em tamanho, em velocidade, em imprecisão. Um medo que é atravessar uma rua e não dar tempo, uma demora em ver. Um medo como algo crescendo entre minhas frestas, algo que não sei de que cor será ou se terá alguma, a forma, o cheiro, um medo tão absurdo que só estremeço dele quando fecho a porta sem que nenhuma arma tenha sido apontada. Por mim. Eu não tenho a calma dos tempos pensados. Eu tenho essa saudade, fenda em terremoto, ferida que não descansa, menino que chega e eu não sei como tocar, se algo em mim desintegra. É isso, eu não tenho calma, essa ascese a um nirvana que sequer cobiço. Só tenho saudade, que é como desaprender uma língua, um gosto, um acento familiar e nada mais ter depois disso: um breu. Um medo que é como profanar um lugar onde nunca estive. Um medo que é como rasgar uma bandeira, eu estrangeira.
Falo porque a ausência suscita sublimações impossíveis e a língua destrava, na solidão pretensa.Amigos, que 2009 seja tempo de bons silêncios inocentes. Obrigada por todas as suas mensagens neste tempo. Não sei promessas de retorno. Mas sigo lendo, lendo, lendo... até!) Abraços saudosos.
"Meu coração bate na ponta dos dedos, é alma de mosaico.O resultado de um ano de e meio de trabalho duro – ela dedica, em média, seis horas de seu dia à escultura -, somado aos 25 anos de trajetória, poderá ser visto a partir do dia 28 de outubro, às 19h, na Galeria Casa Arte (Rua Cel. Bordini, 920), em Porto Alegre, quando Marilia Fayh inaugura sua nova exposição. A mostra reúne 23 peças em bronze, criadas entre 2007 e 2008 e poderá ser visitada até o próximo dia 20 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h, aos sábados das 9h às 13h.
As figuras que Marília esculpe em bronze são, em sua totalidade, femininas e sugerem muito da artista: ”é o meu universo que modelo”, explica. Seu trabalho é despretensioso e reflete seu cotidiano. Não estão ligadas a uma tendência ou estilo.
As estrelas são ícones recorrentes nas peças de Marilia. “As estrelas mudam de lugar. Tudo é impermanente e isto pode ser visto sob uma ótica de brincadeira”, reflete. “A vida é criativa, muito mais criativa que a arte. A realidade sempre me surpreende pela sua diversidade, pelo inusitado. Então vou captando e exprimindo a vida com seus matizes cotidianos. Os impressionistas não se cansavam de retratar a mesma paisagem, apenas usando o recurso da luz em horários diversos. Assim, eu uso a linguagem da figura humana, nas suas muitas expressões ensolaradas ou sombrias”, analisa a artista.
Escultora, pintora e gravadora, natural de Porto Alegre, Marilia Fayh graduou-se em Publicidade, mas foi nas artes plásticas que encontrou o seu caminho. Em 1980, inicia o fazer da arte informalmente no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, sendo aluna de artistas consagrados. Abre seu atelier em 1995. Em seu currículo, constam exposições individuais e coletivas em várias cidades do Brasil e do Exterior, como Paris, Madri, Roma, Toronto, Berlim e Amsterdã. Em 2000, foi premiada com a Medalha de Ouro pela escultura de bronze “A décima Lua Cheia”, pelo Comite D’honneur du Mérite et Dévoument Français, em Paris.
Serviço:
O Quê: Nova exposição de Marilia Fayh. São 23 peças em bronze
Onde: Galeria Casa Arte (Rua Cel. Bordini, 920), Porto Alegre
Quando: Abertura dia 28 de outubro, às 19 horas.
Visitação: a partir de 29/10, de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h e aos sábados das 9h às 13h.
Quanto: Entrada franca
Fotos: Zago
Informações: (51) 3013.1910 / 3013.1529
Contatos com a artista: artfayh@terra.com.br Site: www.mariliafayh.com.br
Fones: 33384073 / 93193373
Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu (MTB 8679-4)- Fone: (51) 84016895
Na primavera do Rio dos Ameandros, o amarelo intenso dos ipês margeia a estrada. Há um quero-quero cioso do seu ninho e o som das marteladas de João Rudá no telheiro das lenhas preenche a manhã. Aqui, o silêncio quebrado de Helga, entre um e outro mate, contando-me...
Nada do que eu poderia dizer seria mais sentido, mais poético, denotaria mais despreendimento do que a mensagem que minha irmã enviou comunicando da partida do seu gato, que era um pouco da família de todos nós. Kim teria hoje, fosse ele meramente humano (ele era bem mais do que isso), 126 anos. Era um ancião sábio.
Hoje entregou ao céu um pouco do azul dos seus olhos. Deixou-o mais bonito.
Beijo, Cá. Teu coração imenso soube mais uma vez ser generoso para além da posse. Que Deus abençoe a nova Estrela.
(na foto, Kim)
O dia entrega-se-me em grãos opulentos de alvura e o sol me cumprimenta livre. Não há no mundo um tão numinoso momento. Para cheirar o mar. Olhar o mar. Voltar ao mar. Provar do vento morno que a noite não tratou de arrefecer em bondades delgadas sobre a pele de há muito intocada. O dia envolve-se de minhas alvuras e a areia me sentencia: livre. É vasta de arrepios a água quando explode nas pedras e é música de marola, quando volta e volta e volta. E volta para embalar o barco, para tocar os joelhos, para benzer dos dedos as pontas, aos dentros mais escondidos de sozinhez e escuridão passadas. E volta para ondular os cabelos e deitar luminosidades de prisma através das pestanas molhadas. Porque o dia assim vivido é grão, granada, gratitude, grandeza de horizonte, oração de tributo à plenitude. E é desassombro, descanso, esperança sem precisão de nada esperar. É prontidão ao destino que vier e é paz sem medida. Porque o sol me reconhece livre.
Ele corta a grama e conserta portas. Ela arruma as camas e prepara massas. Enquanto ele resinga os tempos e modos novos, ela joga infindáveis partidas de paciência contra o computador. Ele tem a generosidade da permanência; ela, da disponibilidade. Ela conserta roupas e planta temperos. Ele ensina ao neto o trato com os cães e a escrita dos números. Ele oferece territórios. Ela acolhe. Getúlio e Clara, pessoas tão comuns. Clara e Getúlio, tão especialmente discretos. Era Dia dos Namorados e a última jura que eles devem ter trocado – suponho – foi no altar. Há cinqüenta anos. Getúlio e Clara não sabem discursos amorosos, no entanto dão testemunho de paciência, solidariedade, aceitação. E uma orquídea amarela com um cartao de letras desenhadas a capricho. No dia dos namorados, sem alarde como na vida inteira, meus pais completaram cinqüenta anos de casados. Minha admiração e respeito. Meu amor e gratidão.
para IreneNa noite que cursava funda, Inácia não dormia. Tentou escutar o grão do silêncio se abrindo nas horas de trevas. Nada. Prestou atenção a remotos zumbidos de pernilongos no quarto. Nada. Nem um grilo desvirginava, com seu grito, a mansidão pesada e quente de janeiro. Nem os porcos, nem mimosa no curral, nem. Estreitou os olhos para ver a sombra da persiana e seus vãos fazendo listras no teto. Era pouca, a lua lá fora. Por várias vezes, cobriu e tirou o lençol do corpo quente. Descoberta, começou de novo, o lençol puxado devagar, o pé, a perna, a coxa. A coxa. Teria ainda aquela cicatriz na parte de trás? As mãos tateavam a pele, os flancos, os relevos outros: nada, noite escura demais. Ao lado, o travesseiro amassado na metade vazia da cama.
Osvaldo andava nervoso. Quase adormecida, percebeu quando ele levantou. Não dormia bem há tempos, Osvaldo. Como também fazia tempos, não tinha ganas de homem com ela. A safra do ano passado, perdida pela seca. A chuva chegando na hora errada apodrecendo as sementes recém-plantadas. O financiamento do banco vencendo, a cooperativa pagando pouco pelo pouco que ainda tinham a entregar. Osvaldo não se abria com Inácia. Tantas vezes, a manhã nascendo, ela ouvia do quarto Osvaldo preparando o dia. Inácia gostava das horas da manhã, antes dos meninos acordarem. Os ruídos do mate sendo cevado na cozinha, a bomba do chimarrão deitando barulhos na pedra da pia, a lata da erva sendo aberta, depois fechada, a água chiando. Lembrava-se do pensamento recorrente, neste momento: “a água do mate, chiando, é Deus pedindo silêncio”. Levantava-se descalça, puxava a cadeira para perto de Osvaldo. Pelos pés arroxeados da pedra fria, um dos poucos momentos ternos: ele os esfregava até aquecer e encobria com o pelego. Comungavam da aurora pelo tempo de um termo de mate. Por Inácia, assim seria para sempre. Um dia, depois de um suspiro, ele desabafou: não sei mais o que fazer, negra, não tem mais jeito. Ela confortava: tem, sim, posso trabalhar, os guris já são grandes, podem te ajudar na lida. Ele: deixa os piá. Precisam é de estudar, pra não saberem de aperto. Bastou isso para o silêncio de facão mateiro cortar a varanda em duas metades.
Na noite que cursava funda, Inácia não dormia. Como dormir sono inteiro era luxo que os últimos tempos não permitiam, resolveu sair da cama. A noite escura demais. Silêncio demais. Pela fresta da porta, o vagalume do cigarro aceso na varanda. Ainda pensou compartilhar – escuro e silêncio – mais aquela insônia. Desistiu e voltou para a cama. Mais tarde, ele também voltaria. Ela então chegaria mais perto, a coxa de onde sumira a cicatriz ainda tentaria provocar o homem que morou nele. Adormeceu, sonhando noites melhores. Pressentiu quando ele entrou no quarto, depois saiu. Ouviu-lhe a inquietude abrindo a porta do quarto dos meninos e tornando a fechar. Teve medos por Osvaldo. Lembrou do dia em que, o ventre prenhe e avantajado, foi buscar o tacho da ordenha no galpão e encontrou o sogro pendurado lá no fundo, os pés roxos balançando as unhas sujas de barro, os garrões encardidos do vermelho das terras. Depois, mais nada. Acordou dores de parir e nunca mais quis pensar nisso. Por que lembrava agora, tanto tempo passado?
No fim da noite que cursara funda, Inácia levantou descalça, os pés gelados de pedra ansiando pelego e colo. Osvaldo não estava. Aqueceu a água do mate e pensou a água do mate chiando é Deus pedindo silêncio. Olhou para a mesa vazia sem imaginar que, naquela mesma mesa, em alguns dias, dividiria com os filhos os afazeres de lavoura, chiqueiro e curral.
(Imagem e texto: CeciLia Cassal)
(Epígrafe: desconheço o autor. Texto: CeciLia Cassal)
Porto Alegre, 12 de maio de 2008.
Não há certezas, meu amigo,
Amigos,
A cidade amanheceu linda e nem ainda era abril. Tivera já seus tempos de Guapuruvús, Paineiras na praça XV, Jacarandás, até o sólido amarelo dos Ipês. (Alguém já disse que as estações em Porto Alegre são marcadas pelas cores de suas árvores, e eu acho isso de uma profundeza séria). Gosto aqui de cenas que nunca enxerguei, portoalegrense de adoção. Venho do Rio dos Ameandros e nada sei dos reflexos nas vidraças, quando entardece. Da lua cheia, quando ilumina o farol de Itapuã e evade-se, marolas afora, pela Lagoa dos Patos. Nada sei da cor ímpar de seus morros em dias de chuva, da chuva sobre a Ilha das Flores, de catar misérias nas sarjetas. Mas sei que Piazzola deveria ter nascido aqui. Sua música no pôr-do-sol encontraria boas companhias e seria sempre incomum, por estes pagos. A cidade assumiu seus outonos e filtrou-se, luz limpa e ventos alvissareiros, pelas árvores da Dona Laura. Todas as ruas, todas as faces, das pétalas do Dometila à mesa de canto no Bistrô do MARGS, dos políticos do Copacabana ao cadeirante simpático que pede auxílios numa esquina da Ramiro, da mesa no jardim do Constantino ao café em pé nos bares da rodoviária. Porto Alegre é tanto mais do que a comemoração precisa pelos seus 236 anos! Pena que ainda não seja abril. Sim, porque em abril ela desfolha-se em alaranjados plátanos recobrindo os caminhos do mate, no fim da tarde do Parcão. Porque em abril ela será para sempre toda encontro nas calçadas, ramas de flores brancas em envelope de ráfia, namoros medievais. Antecipou-se, a cidade, em sua festa. Mal sabe ela, mas o tempo preciso é abril. Texto: cecilia Cassal. Imagem: edição especial Correio do Povo
Ele saiu correndo e era bem de manhã. Amarrou os cadarços e a coragem, arranjou a contenteza nos olhos e partiu com o vento, espada solar. Esqueceu promessas e benesses e desmanchou-se céu afora. De onde estava, desdenhou da correnteza da vida besta dos livros de auto-ajuda e emprenhou-se de uma felicidade não comprada pelo relógio-ponto. Andou à noite pelas ruas sem saber ao certo quem era. Onde a inteligência suficiente para ser especial?, desdenhava-se. Desmembrava-se pelo avesso, os dentros atraiçoando os mistérios do signo. Quando teve saudades de cavalgar poemas, reencontrou o passado e amaldiçoou as visões proibidas aos frágeis. Divorciou-se e entregou a solidão a um sapato abandonado na rua, não queria dar chances de retrocessos. Quis conhecer as timoneiras do metrô e os pilotos anônimos que deixavam escritas brancas em linhas sobre o céu. Transitou nas noites insones entre a paixão e o devoramento da rotina e abominou os fins procrastinados. Analisou os mapas virgens inscritos em fotos antigas e perscrutou tartarugas milenares. Mas era de tarde e havia no amor a urgência dos amantes emaranhados e medrosos durante duas eternas horas. Adivinhou a vida secreta das mulheres santas e loucas e perdidas e ricas numa nudez de lamber sal e cheirar gozando pedras impronunciáveis. Foi Jeremias, Dante, Alexandre, Lucrécia e Hamlet: quando viu, a vida passara. Apaixonou-se de novo num instante para depois desdenhar de rosas vermelhas, chocolates e Joyce. Outro dia, construiu nos olhos marimbondas casas e brincou barranco monstros enxurrada maviosidades outras. Teve pensão do passado e declarou-se inventor da substância impalpável da poesia.
Volto como volta o vento frio da cordilheira:(Imagem e texto: Cecilia Cassal. Cormorães em Bahia Lapataia)

Por entre os carros e através dos dias e por detrás das falas, eu me perguntava por onde andavas quando eu era insônias e desterros e solidões. Onde estavas, quando não te via no capim alto dos beirais de estrada, nas arestas duras dos picos gelados, nas praias vazias, nos ancoradouros órfãos de embarcações, onde? Quando te procurava entre risos e urgências, por que não achava?
Eu queria escrever flutuações
(foto: Thanatos artificialis, de Daniel Martins)Tendo encontrado o desfecho necessário para concluir O Livro das Solidões Infelizes, a Sra. C. fechou-lhe as páginas e cerrou as pálpebras. Logo, a última gaveta receberia – para jamais ser editado – o seu penúltimo mau romance.
(A vida é mesmo estranha. Por vezes nos rouba a palavra. O mote - porque ou embora forte - estanca no ar o gesto. Por todo este mês nem uma frase organizada conseguiu sobreviver às correrias. A alma se escondeu em paragens distantes, mas devidas. Gostaria de desejar a todos - especialmente aos que não consegui responder os gentis comentários no último mês - um 2007 das melhores travessias. Tomem seus barcos, cruzem o rio. Sim, eu sei lugar comum, mas a vida é rápida demais para hesitações. Cuidem-se bem, mas não impeçam seu curso. Abraços.)
(foto: Guilherme Limas)
Era uma vez uma guria que cresceu depressa demais. Pernas longas demais. Finas demais. Aerodinâmica posterior inexistente. Cabelos anelados demais. Sardas demais. Saliências anteriores escamoteáveis por largas camisetas. Desengonçamento e vergonha.
"Ya estoy en la mitad de esta carretera
- Vai doer?, ela interrompe a explicação sobre o procedimento que precisávamos fazer para tratar suas muitas verrugas nas mãos.
Das coisas terríveis do fim, o mais entristecedor nem era o fato de jamais visitarem juntos aquela cidade que tinha O Porto, onde ela lhe surpreenderia com as meias grossas e coloridas sob a saia curta. Era tampouco a certeza de nunca mais ouvir a risada larga, beijar beijo de escada rolante, sentir na moldura da boca dele o cheiro do cheiro dela. O que mais a entristecia era que ele jamais conheceria os dois segredos que ela guardara cuidadosa para a velhice, as mãos dadas, cadeiras na varanda. 
(foto: David Guimarães)
A noite chega sem ser percebida, em Búzios. Num instante era claro e - olha! - na praça acendem-se incandescências amarelas dos bicos de lâmpadas sobre as mesas dos artesões. 
Escultura da Marilia Fayh (www.mariliafayh.com.br). Um dia, será minha.
Falta*
Não sou predizível
linear
cotidiana
comezinha.
Sou o que ainda
faz falta.
A dor
que não cessa.
O riso
na hora inexata.
A lembrança tardia
descoberta
na gaveta errada.
* reproduzo aqui o que alguns já conhecem: nem tudo são silêncios de espinho sangrante. Este poema ganhou o primeiro lugar no 3º CONCURSO NACIONAL FERNANDO ALBINO DA ROSA ASES-RS (Associação Santa-rosense de Escritores). Comemoro com vocês, de olhos e coração atentos.
Outono. Minhas certezas têm o peso das folhas, quando desgarram dos plátanos. A vida pinta-se deste amarelo lento turvado de ferrugens improvisadas. Há uma pasmaceira pesada e silente, amnésia e torpor.
Porque há tempos ele já se entregara a ela com esta disponibilidade sem condições, categorias, ou mesmo com este jeito inclassificável de quem entende que desprecisar de explicações seria a melhor maneira de amá-la;Não entendo de dinheiro. Nada sei sobre mercado de capitais, finanças, investimentos, falências, insolvências, inadimplências e outros quetais. Não é nada radical, do tipo não-sei-não-quero-saber-e-tenho-raiva-de-quem-sabe. Simplesmente não faço muito esforço para movimentar-me entre cifras. (Tenho o que preciso e assim está bem). Há quem faça isso com muito mais propriedade.
Dito isso, considero-me eximida da necessidade de qualquer análise sócio-econômica sobre o que vou falar. Sustento-me pela memória, que na minha idade já é o que de melhor há de se possuir. Nascida em um quarto de paredes verde-bandeira brilhante da grande casa de paredes de tábua dupla, a primeira coisa que ouvi foi o ruido metálico de algum instrumento sendo jogado pela parteira Dona Maria na bacia de cobre aos pés da cama onde minha mãe, ajudada pela irmã, ainda se livrava de outros restos das nove luas gestadas. A segunda coisa que ouvi foi o pi-pi-pi do rádio-telégrafo que meu pai operava na sala ao lado. Mais tarde, seria alfabetizada primeiro em código Morse.
De coisas significantes ao que vou contar, o primeiro presente, uma boneca de curtos cabelos louros, com boina azul-marinho e traje de aeromoça (na época não se dizia comissária) com estrelas prateadas de quatro pontas nas lapelas. Mais tarde, a notícia da morte em seus primeiros significados, através de um avião cujos destroços fariam parte durante anos da decoração do quintal da grande casa. Nas loucas ventanias de primavera, as antenas de rádio entortando-se sobre os telhados, a igreja com um São José e o Menino no colo sobre a torre sendo destelhada...
O pai falando da leitura dos barômetros e o significado dos cirros no céu, ensinando sobre as direções dos ventos enquanto a mãe pedalava uma imponente Singer negra, à custa de costurar rotas birutas. O sol no capim do campo deitando no vento e o brilho metálico das asas dos pequenos aviões, o cheiro do querosene colando nas narinas, as luzes laterais da pista de pouso, o ronco das hélices giradas pelas mãos fortes dos homens para movimentar os motores das naves que nos levavam por sobre as lagoas, na primeira visita à capital. As capivaras na lonjura da cabeceira da pista, lá onde não podíamos aventurar-nos sozinhas, minha irmã e eu, os quadros que atestavam uma vida funcional honrada aos dez, quinze, vinte anos de trabalho enfeitando as paredes da sala de receber tripulantes.
Um dia, o campo de pouso limitado pelas pequenas casas da vila nos entornos, a empresa encerrou as atividades no Rio dos Ameandros. Naquele ano e nos seguintes, muitas vezes ouvíamos, noite alta, o ronco dos motores dos aviões que - não encontrando visibilidade para pousar na capital - precisavam pernoitar ali até clarear o dia ou findarem as tempestades. Nestas noites, saíamos pela pequena cidade convocando os poucos automóveis que existiam para iluminar a cabeceira da pista e possibilitar a aterrisagem. Depois, era mãe desfazendo-se em gentilezas, preparando camas de campanha, sopas, distrações.
Mudam os tempos, loteia-se o campo de pouso e aquinhoa-se a infância. Guardam-se seus pedações em escritos, fotografias, pedaços de asas, brevês, decolagens e voltas tantas. Hoje nós, que por muito tempo fizemos parte da grande família da Varig, esperamos decisões judiciais que arbitrem sobre o passado e o futuro. Será que algum juíz neste mundo sabe o que significa ter nascido num campo de pouso? Crescido num aeroporto? Empinado pandorgas pela mão do pai em um campo de aviação? Será algum dinheiro neste mundo capaz de devolver aos olhos dos velhos telegrafistas, pilotos, comissários, técnicos, mecânicos, guarda-campos, o orgulho e a dignidade do trabalho de fazer voar?
Foto: CeciLia Cassal
Há o tempo que consome, perverte, traz o esquecimento, ignora. Prefiro o que aprimora. Um tempo que esmaece o fato, atenua a emoção, aplaina os quereres. Prefiro o que os reinventa, motes para uma vida inteira.
Nas décimas-quartas semanas, todos os anos, certezas forjadas a ferro e fogo esculpem uma nova pele no rosto de uma bailarina. Quando chega este tempo benfazejo, escorre nela uma luz quase azul de tão branca. Como todas as coisas feitas para durar, não há ferrugem, zinabre, oxidação que a deteriore. Como a memória dos tempos que aprimoram os quereres e reinventam a emoção.
Porque esta cidade
é sempre uma festa
eu sigo fotografando
seus verdes silêncios
e os dias já parecem
em pleno azul.
Os caules descamam
indiferentes ao estio.
As folhas amarelam
e não sabem
das estações.
Eu sei.
Daqui a pouco
será novamente
abril.
Foto: Marilia Gomes
Primeiro Ato

