Quarta-feira, Novembro 04, 2009

João Rudá



Rio dos Ameandros, 03 de novembro de 2009.

Senhora,

Não estranhe esta carta, eu apenas não sei falar. Mas escrevo. E graças às coleções de livros e revistas que deixou no rancho nas últimas vezes em que lá esteve, tenho escrito textos cada vez mais longos. Escrever tem me devolvido uma certa espécie de som e também por isso sou-lhe agradecido. Comecei com aquele livro enorme que tem as fotografias sobre as flores, depois o dos legumes, o das cercas vivas, aquele das pequenas frutas vermelhas da França... Quando me dei conta, não tinha passado um único dia destes últimos anos sem que eu sentasse na soleira do seu rancho (aliás, há uma tesoura no telhado sobre a cama que precisa de reparos. Se me autorizar, tratarei de trocá-la) depois das lides do jardim e da horta e lesse muitas daquelas páginas, antes de voltar para a casa. Li aquelas histórias e tratei de imaginar os lugares de que falavam, os tempos onde tinham sido escritos. Um deles lembrou as chuvas deste inverno sem fim e as cheias que enfrentamos no Rio dos Ameandros, as vacas boiando nas águas ligeiras, as barrigas inchadas de enchente e morte. Mas devo confessar-lhe que não gosto das poesias, talvez porque ainda não consiga achar para elas uma utilidade. Um dia, encontrei umas páginas escritas com sua letra. Achei que deveria voltar a dobrá-las e devolver-lhes ao livro. Fique sossegada, não li e nem toquei mais naquele volume.

Mas deixa que retome o que explicava no início, já que sei que deve ter ouvido várias coisas sobre a minha doença no armazém. Como todo mundo sabe, eu desaprendi a falar. E mais, nem eu não sei se sei falar. Há muito, uma doença que nunca me explicaram direito, tirou o som da minha própria voz. Tirou-me o som do mundo que eu conhecia. Contava eu a idade em que os pelos começam a aparecer no corpo de um piá, quando a febre chegou. Lembro da dor em minha cabeça, como se ela tivesse sido sendo aberta com um golpe de machado. Lembro de ter ficado parado por medo de que doesse mais. Nada mais, desse tempo. Dizem que dormi por meses, disso também não sei. Quando acordei, o mundo era feito de um escuro absoluto de ruídos. Não entendia o que aconteceu e, não sabendo se poderiam responder-me, preferi não perguntar, por fraqueza, susto ou abandono. Nada havia a fazer, além de ocupar-me dos dias chegando e morrendo através do vão feito janela aberto na parede de barro e palha do rancho onde morávamos, meus pais e irmão. Tomaram-me por mudo, acatei. Por isso, hoje não sei se sei falar. Aprendi a ler os olhos, muito mais do que os lábios. Sinto, muito mais do que compreendo. Algum tipo de silêncio, (lembre, para mim a vida é essa ausência da maneira mais absoluta que a senhora conseguir imaginar) principalmente aquele que chega cedo na manhã, me encanta e possui pelo dia todo. Ele parece mais completo do que o silêncio das vozes que não ouço. Aprendi a ler cedo, - ainda quando meu irmão freqüentava a escola e não tinha ido embora para a cidade - e a procurar tarde nos livros a relação com o que não ouço, mas pressinto. Com os livros, os bichos e os silêncios, enfrento, sem lutas, uma solidão de que não sofro.

Como a senhora sabe, nos últimos anos Helga preenche os meus dias com suas conversas. A ela pouco importa se eu respondo, se compreendo, se gosto: ela precisa falar e eu a olho. Nada mais é necessário, além de seus temperos plantados em linha sobre os canteiros, do que o cheiro de sua comida, nada mais além das suas panelas areadas e secas ao sol. Existem entre nós cuidados que poderiam evitar as palavras. Sobre Helga, tudo anda bem. Às vezes penso até mesmo que ela esteja feliz, de uma felicidade que eu aprendi definida nas coisas que leio.

Como primeira vez, tomo a liberdade de escrever-lhe para que possa dar-me também uma voz e porque temos sentido a sua falta, neste rancho em que a senhora decidiu colocar o nome do rio. Atrevo-me a mais do que escrever-lhe para – com todo o respeito que me foi ensinado – contar-lhe das últimas estações, do tamanho que as parreiras tomaram, da taipa que foi aprontada lá para o final do terreno, dos cardeais que fizeram ninho no oco queimado do raio, na árvore do fundo, dos alagamentos que arrastaram casas e gado e colheitas pelo rio. Escrevo-lhe por ter pensado e escrito umas impropriedades e dar-me ao desfrute de dizer-lhe, se não for para que se ocupe em corrigir-me, apenas para que talvez algo tente tocar-lhe nestes tempos em que não sabemos da senhora.

Outro dia escrevi assim: Um rio não precisa existir, se ninguém senta às suas margens para contemplá-lo. Um rio não merece existência, sem alguém que nele mergulhe, por necessidade ou gana ou simplesmente por amor à fluidez das águas entre as peles. Um rio não precisa, um rio nem precisa.

Por favor, Helga e eu gostaríamos de saber suas notícias, depois do seu adoecimento. Depois da morte de meu irmão, a senhora entrou em nossas vidas, fez-nos cuidadores de sua propriedade. Também nos afeiçoamos aos labradores e, como eles, nos alegra a poeira levantada pelo seu carro, quando completa a última curva da estrada. Não tome a mal essa carta, não a pense como uma impertinência. Apenas receba nosso reclame de saudade. Helga, se soubesse que lhe escrevo agora, talvez quisesse oferecer-lhe um chá.

Pense sobre o Rio.

João Rudá
(Imagem e Texto: CeciLia Cassal)

Sábado, Outubro 03, 2009

Um Presente para Vênus

Eu não disse? Esta rede dá peixes-palavras a mancheias. Dá amigos de prosa boa em uma margem de rio caudaloso. E dá adornos à Vênus Libriana que mora em mim.

Ganhei este selo da Jacinta Dantas, de coloridas idéias. Beijo, querida, obrigada pelo mimo.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Nós na Rede

Porque, quando a gente silencia, é que a Palavra,
- peixe no fundo, nas margens, nas bocas dos rios, -
se cria.
Quando a gente se solta e mergulha,
sempre alguém de rede boa
captura em nós alguma poesia.
Aqui vai um convite a todos vocês. Este ano NÓS, os nós dessa rede virtual de palavra-poesia, somos quatro. Quem sabe no ano que vem o Porto Poesia albergue Nós-Quatrocentos?
Mara, Juliana e Renato, agradeço honrada o convite. Farei o possível para estar à altura.
Um beijo em vocês,
CeciLia

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Mistério


O Gato


Ela não me fala, mas sei que está lá. Sei mais, além do fato de que me sonega a tristeza e alguma queixa concreta. Conheço as coisas que insiste em não dizer, embora às vezes chegue a pressentir que ela já sabe. Há uma brincadeira que se desenrola entre um felino que sou eu e uma borboleta: a verdade dela. Posso esperar, também carrego meus inevitáveis segredos. Quase sempre tenho medo de que ela os leia numa melancolia mais densa escondida com cuidados atrás do vidro velado dos meus olhos. Depois acho que não, ela se move superficialmente demais na vida para que possa suspeitar-me. Mas eu queria que ela ou alguma outra me desvelasse um dia. Ah, tal mulher teria mais do que a minha alma, as minhas setenta vidas, todos os meus instintos, os meus melhores sentidos: teria a minha história reinventada exclusivamente pelo seu contentamento. Ela não me fala, mas há um silêncio que perpassa a distância que nos cabe através da mesa, das flores no jarro, dos copos e dos talheres, um oco que me transfixa uma dor e segue além de mim. Atrás da sua verborragia, tem esse silêncio sólido e poderoso que ela tenta esconder, mas eu sei. Sei?



A Borboleta

Ele me olha e eu acho que sabe. (__) Já disse um poeta que há coisas que nunca deveriam precisar ser ditas, em se tratando de amor. Verdades que se envergonhariam, caso não fossem generosamente adivinhadas pelo outro. Há muito temo pela vulgaridade de certas falas; mais prudente – em se tratando de manter a delicadeza - é guardar o segredo e silenciar. Há coisas demais na vida que podem ser ditas: o dia lindo, a decoração agradável, alguma notícia recém lida. Melhor manter a alegria efêmera de uma borboleta: tocar de leve o prato, a frase, os temas... É preciso preservar no outro a liberdade de não saber e, não sabendo, nada necessitar fazer. Desse modo, guardo comigo a dor que não se pode dizer, mistério enjaulado, peixe que raramente sobe bem próximo à superfície para logo em seguida sumir novamente na escuridão do fundo. Só não posso demorar-me demais em seus olhos: tenho as asas demasiado transparentes.
(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: Hugo Amador, "Amor em Tons de Branco")

Domingo, Agosto 09, 2009

Divã. (ou) Um desagravo à desonestidade

Há muito não escrevo nada. No exato momento em que explicito isso, penso nas centenas de prescrições, aulas e listas que vão de supermercado à manutenção da casa, bilhetes e e-mails que andei escrevendo nas últimas semanas. Corrijo: há muito não posto nada. Normal, alguns pensariam e atribuiriam aos lapsos de criatividade que acometem periodicamente a todos que escrevem. É mais. Alguns delicadamente me cobram: “o que acontece, CeciLia, há dias entro aqui no Lua e nada aconteceu?!”

Ainda ontem pensei em escrever um texto iniciado várias vezes penitenciando e – de certo modo – louvando as infinitas distrações da pessoa desse lado do teclado. Não deu. Não era isso. Havia outro assunto que precisava ser olhado, possuído, esgarçado. Passavam todos os temas e ele continuava lá, à espera. Um assunto com o qual não queria nunca mais envolver-me e assim dava um jeito de fechar-lhe a porta. Não adiantou, entrou pela porta dos fundos, como todas as verdades que precisam ser olhadas.

Falo aqui da honestidade. Não da honestidade inexistente e utópica de quem não erra. Falo da possibilidade de errar, explicitar o erro e incorporá-lo ao que se é. De pisar na bola e pedir desculpas. Das meias-verdades, mentiras inteiras, das omissões importantes e que roubam ao outro a possibilidade de julgamento e decisão com o conhecimento todo sobre alguma situação. Falo da insistência que algumas pessoas possuem nas duplas agendas, nas vidas paralelas, na falsidade crônica, na forja estúpida de uma imagem que nunca lhes pertenceu. Falo na necessidade de enganar, ocultar, manipular, optar por caminhos indiretos quando a verdade é tão benéfica, tão simples.

“Mas essa não é a CeciLia, vocês devem estar pensando, ela aqui sempre tão envolvida com coisas mais etéreas e menos mundanas. Por que resolveu fazer essa conversa, logo aqui, lugar de Vênus?”

Explicito um lugar-comum: odeio gente sacana. Assim mesmo: ODEIO! Odeio gente invasiva, inescrupulosa, gente sem limites mínimos de respeito à coisa ou sentimento do outro. À verdade merecida pelo outro. Gente a quem um tratado inteiro de ética aplicada não mudaria nada na vida. Gente para quem os fins – os que trazem benefícios a si próprios, bem entendido – justificam todos os meios. Talvez aceitem um rótulo de compulsivos, sociopatas ou borderlines, porque um diagnóstico da ciência provavelmente mascare e amenize a sordidez da criatura e seus feitos.

Há mais de cinco anos alimento estes diários virtuais. Já escrevi para o Margaridas, meu primeiro blog, para um primórdio de Lua em Libra, quando o Terra resolveu desativar o Weblogger, e hoje alimento este espaço onde vocês me lêem. Não foram poucas as pessoas a questionarem sobre livro que não publico por uma série de razões que não cabem aqui e que – sinceramente - nem sei se conheço todas. Fui selecionada em alguns concursos literários, nesse período, participei de antologias. Para brincar melhor nesse jogo com a Palavra, frequentei oficinas com diversos e bons professores. Sobretudo, interagi aqui. Ganhei amigos a quem conheço pessoalmente e não, elaborei crises, dividi saudades, compartilhei visões. Há muito acredito que, uma vez ministrada uma aula ou publicado um texto, eles pertencem ao interlocutor, o que não elimina o fato de ter sido gerado por alguém. O que alguns nunca aprenderam foi que a gente explicita o autor, quando cita uma produção de outrem. A ciência e a literatura são de domínio público. Ou não se podem chamar assim. Deste modo, e porque nunca me apropriaria de produção alheia sem citar a autoria, publiquei aqui um bocado de coisas.
Esse é o verdadeiro motivo de estirar-me neste divã: há uns meses fui informada de um plágio. Uma presumida distinta senhora, na época à frente de uma associação de escritores, simplesmente roubou-me um poema. Alguém que se propôs, ao menos por um tempo, defender a literatura e seus escritores publicou em seu livro, como se dela fosse, um dos meus poemas mais caros: aquele que escrevi no dia dos meus quarenta anos, no caminho e à frente de uma lagoa que recebeu-me a comemoração solitária por opção e necessidade de recolhimento. Um poema que, dois anos antes do roubo, tinha sido selecionado e publicado na antologia dos Poemas no Ônibus, com a autoria correta. Confesso, há dois meses tento assimilar o fato. Fiz contatos, pedi explicações inexistentes. Nada. Tenho em minha mesa os dois livros, de 2004, com o meu poema e de 2006, com o que ela publicou.

Muitos já o conhecem, mas transcrevo-o mais uma vez aqui, ratificando a autoria.

Não Gosto

Em dias de maior tristeza
permita-me desaparecer
sem deixar bilhetes
sobre a mesa.

Ocorre que nestes dias
ando com a alma aos farrapos
(isso aprendi com os gatos)
não gosto que me vejam
morrer.

CeciLia Cassal

(Texto: CeciLia Cassal. Imagem: José Paulo Andrade. Música: Sonho Impossível, com Maria Bethânia)

Quinta-feira, Julho 16, 2009

Coisa escondida

Porque foste coisa escondida,
nunca me foi dado o direito
ao teu luto, nem te pude
jogar flores à sepultura
ou questionar de ti
a iminência do fim.
Não me foi concedido
chorar tua ausência amparada
por ombro qualquer,
nem vestir negro,
nem adentrar o barco da tua
última viagem.

Porque a ilusão é sempre uma morte
mais anunciada que acreditada,
caminhei sozinha
ao cadafalso e sorri
um sorriso sem medidas
aos algozes de olhos desprovidos
do mais humano dos medos,
o da remota possibilidade do erro.

É que amar é vida sem tamanhos,
fronteira e não limite,
morte por escolha e entrega.
É que luto de amor
é vitória sobre a indiferença,
acordar depois da anestesia,
merecer a eternidade.
.
Texto: CeciLia Cassal
Imagem: Metades Caras, Wagner Cassal

Domingo, Junho 28, 2009

Missivas do Porto e do Rio

Só quando transgrido alguma ordem
o futuro torna-se respirável.
Mario Benedetti
.

Toda a redenção é vã.
Adoraria ser filha do vento,
Não há perdão na Palavra, assumo.
mas vim sob a insígnia do tempo:
Ainda assim, a letra é o que me cabe neste labirinto.
assim sigo, sendo em mutação.
Abdico de fios, sementes ou migalhas que
É sobre a terra e sob a sombra que
remotamente possam conduzir-me à saída.
encontro a fecundidade do que posso vir a ser.
Escrevo para perder-me.

.
(Texto: CeciLia Cassal / Eliza Maciel -
imagem: HUDSON PONTES - RJ - Baía de Guanabara ao entardecer )
.
Isto é um convite. Uma proposta. Uma notícia. Quase uma ameaça. Quando o Porto-quase-sempre-Alegre e o Rio-de-Janeiro-que-continua-lindo encontraram-se em junho, inauguraram uma Esquina na Lua chamada Missivas do Porto e do Rio. Nem desacato na esquina, tampouco uma lua orbitando em libra. Apenas duas amigas que escrevem cartas e transgridem na exposição possível: a da palavra. Desde já, você está convidado. Sente-se no cais. Deixe as pernas balançando sobre as águas. E pense com a gente. Interfira, dê palpites, pitacos, sugestões. Entre de sola, sem sola, se jogue na água, braceie, mergulhe. Volte à tona com um peixe. Deixe-o escapar. Seja como for, no fim riremos juntos. Ou não.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Das permissões não concebidas



Eu preciso inaugurar em ti um espaço ainda intocado, ela sussurrava. É preciso que descerre, desnude, desvende, ilumine qualquer canto teu como um raio de sol que, entrando por uma fresta insuspeita, desvelasse uma escultura há muito encoberta pela poeira. Dizendo isso, ela enxergaria as partículas refringindo na luz e acreditaria no caminho que a luz faz e que torna possível a existência das coisas obscuras. Eu preciso ensinar-te uma nova língua que em breve será código, inventar uma carícia que te arrebate à sombra, entoar uma música que vibre teus cristais e altere o rito. Ela dizia essas coisas todas e procurava nele uma confirmação que remotamente a fizesse entender uma permissão.

Do fundo de um ceticismo recém conquistado, ele, solene, duvidava.
(Texto e Imagem: CeciLia Cassal)

Domingo, Junho 21, 2009

Desencontros

.
.
Por ser o Amor previsível e cordato

na noite fria esperara-o

a pimenta vermelha decorando

a flor de ervilhas do prato.


Mas porque também se mostrava

renitente e um pouquinho inexato

o Amor naquela noite

demorou-se a decidir.


De modo que - tão logo

ele tinha chegado -

ela acabara de sair.

(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: Carlos Costa Branco)

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Ressurreição

(Texto e Imagem: CeciLia Cassal - Edição de Imagem: Wagner Cassal)


Quinta-feira, Maio 21, 2009

Viejos




“cada ciudad puede ser otra


cuando el amor pinta los muros


y de los rostros que atardecen


uno es el rostro del amor”
Mario Benedetti



- ¿Que buscás, en este lugar de viejos?

Sendo ele um entre os outros de similares vestimentas e atitudes, acostumei-me à sua presença naquele local. Sentava-se em uma das mesas que tinham um cinzeiro metálico ocupando uma espécie de nicho redondo central e ficavam próximas do balcão alto de cedro envelhecido. Possuía um acento na língua que era o mesmo do lugar, mas que era também diferente.


- ¿Que buscás, en este lugar de viejos? Repetiu a pergunta e pediu uma permissão que a minha timidez não chegou a dar. Sentou-se. Estivera naquele café todos os finais das manhãs dos últimos dois meses. A media-luna-cafe-y-leche faria as vezes de desjejum e almoço antes do início pontual das aulas às treze, na Faculdade de História. Como sabia jamais conseguir começar um dia direito antes de ter esgotado ao menos meio termo de mate, escolhi o turno da tarde para os estudos, que mesclavam o idioma de Cervantes à pesquisa de particularidades sobre os vinte e três povos da banda ocidental do Uruguay, a quem dedicaria em breve o trabalho de conclusão de curso. Mas estas eram as referências formais, os argumentos que eu dera à vida, antes de deixar atrás família, trabalho, amigos. Precisava descobrir algo e aquele “bar de viejos” era a minha referência, quando a solidão e a saudade ficavam impossíveis de conter nas mãos, ou seja, todos os dias. Daquele lugar e, saberia mais tarde, de toda a vida. Gostava de ouvir as histórias que repetiam, sem que se suspeitassem ouvidos. Desde o primeiro dia que atravessei os paralelepípedos da Ituzaingó, partindo do hotel barato onde me hospedava na ladeira que iria chegar ao porto e, logo além, ao velho mercado público, escolhia sempre a mesa ao lado de uma das janelas que viam a calçada, em parte para fugir da fumaça dos cigarros e, em outra, do cheiro antigo do lugar, que paradoxalmente enchia-me de acolhimento e me agravava as crises de uma asma recém-inaugurada. Renovavam-se os grupos, mantinham-se os temas. A política, a economia, os feriados agrícolas, o projeto de lei que permitiria desapropriações e a extensão da rambla costeira no sentido norte, até o bairro onde depois se construiria a ala nova e abastada da cidade, uma ou outra reminiscência ou queixume de amor. Preenchiam-me.

Nas semanas seguintes, num acordo tácito, compartilharíamos a mesa. Em troca de que não fumasse, eu trazia para ele bombons recheados de creme de café comprados em um único quiosco na rua que ladeava a catedral. Contaria que, sendo aquele o seu país, ainda assim era também um quase-estrangeiro. Havia retornado depois de muitos anos, um projeto político ou cultural que não compreendi direito. Aliás, era isso o que quase sempre acontecia. Perdia-me na sonoridade da fala, no timbre um pouco rouco da voz. Desconectada do sentido do que estava sendo dito, enroscava-me no som. Como quem tem muito a dizer, ele não falava lento. Interrompia-se frequentemente para cumprimentar outros, tinha muitos amigos. A cada vez, tirava da valise um livro diferente de onde lia para mim parágrafos inteiros. Livros seus e de outros. Por vezes, indagava das minhas leituras e criticava minhas escolhas, alertando-me sobre as tendências políticas de cada um dos escolhidos. Mas era A Voz. A voz atravessando a distância da mesa. Poderia ensinar-me muito mais do que o curso, eu tinha essa consciência. Mas não conseguia. Aquele ritmo não permitia. A voz dominava tudo. Por vezes conservava fragmentos, para que pudesse pensar neles depois das aulas.

Na penúltima quinta-feira do terceiro mês, a mesa da janela esteve silenciosa. O inverno mostrava seus dentes e um vento polar cortava a ladeira, subindo desde o mar até a Plaza Matriz. Quando estava por sair, Elvira entregou-me o papel.

“No derrames sobre mi tus ojos


Soy viejo y tengo los dedos artrosados.


Si acostumbrarme a tu presencia,


después las mañanas quedarán


más frías.


Tuyo,


M.”

Comecei a desejar ser mais velha, ter lido mais. Muito mais. Conseguir impressioná-lo com algo que ele ainda não soubesse. Não adiantava, era uma apenas uma estudante tonta, com parcos conhecimentos do que quer que fosse. Nas semanas seguintes, à medida que nossa amizade aumentava, desejei que as aulas iniciassem mais tarde. Da janela do hotel, não raras vezes surpreendia-me cuidando a rua e sua chegada ao café. Esperava pelos dias de vê-lo como se deles dependessem as respostas para as perguntas que eu sequer havia elaborado. Ainda. Elas viriam depois, no curso da vida, que naquele momento se contava por dois dias. Preciosos dias. O calendário era feito de terças e quintas-feiras.

Nas últimas duas semanas do quarto mês, ele não apareceu. Então, as conversas dos velhos aborreciam-me. Mesmo Elvira, com sua delicadeza em servir-me dia após dia sempre o mesmo pedido, parecia outra. Os navios coloridos que se alternavam no porto e o ruído alegre das bancas do mercado já não pareciam atrativos. O trabalho tornara-se uma teia sem inicio ou fim, um labirinto de informações desimportantes demais, desconexas demais, criticáveis demais. De qualquer maneira, as informações estavam todas ali e eram tudo de que necessitava para concluí-lo. Aproximava-se o dia de subir as escadas do avião de retorno. Tudo o que precisava era não pensar. Manter a rotina, cuidado indispensável de não queimar navios.

Quando ele apareceu já eram doze-e-um-quarto. Na mão esquerda, a pasta escura de sempre. Na direita, escondida atrás do sobretudo, uma gérbera. Vermelha. Somente uma. Explicou-me da ausência, da necessidade que teve de viajar repentinamente, então silenciou. Olhava a chuva através do vidro e pela primeira vez não leu. Apontou o paraguas e ofereceu-se para acompanhar-me até o Instituto. Beijou-me um gosto de dor e despedida, depois sorriu pela metade:
“tu juventud no merece esta melancolia.”


(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: Ricardo Furtado)

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Os Amantes

Escondiam suas senhas nas mangas das palavras para sacá-las, poderosos ases, no silêncio da noite grande ou na claridade parca da madrugada. Encontravam, no avesso dos bolsos internos, os mantras com que se deliciaram um dia. Costurados. A linha resistente da distância fazendo-os mais fortes, aprisionados voluntariamente e para sempre aos forros do tempo que cumpririam ainda. Caminhavam através da chuva e molhavam lábios, faces, cílios. Deixavam-se encharcar mais. Ah, a chuva. Não pensavam em reminiscência, essa coisa única que resta aos velhos sem saída. Antes mantinham viva, apesar da vida, a lembrança. Como se fora hoje. Como será amanhã, o que ontem, apenas ontem, foi.

(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: O beijo, Gustav Klimt)


Sexta-feira, Abril 24, 2009

Duas Histórias Estranhas e Algumas Alegrias

O Prêmio Arte y Pico foi concedido a este satélite pela Mara Faturi

Duas Histórias Estranhas

A vida é mesmo engraçada e nem sempre encontramos as respostas para o que ela nos apresenta. Ao menos não sem muitas horas de divã ou muitos kilômetros pedalados, ou o equivalente em horas caminhadas à beira-mar. Há quase um mês uma luminária despenca do teto sobre meu notebook e leva, junto com as fotos de todo o meu passado, mil textos e poemas jamais publicados, documentos, as aulas do semestre inteiro que está começando, palestras, teses, artigos científicos, artes, planilhas, contatos, agendas, mimos recebidos. Segundo o técnico, um dano físico esculhambou o
hard disk, e ele teve uma demência precoce e fulminante, a contrastar com a minha, tardia, incidiosa. Se tinha back-up? Claro que não. Estas coisas só acontecem aos outros, afinal de contas.

Peça nova instalada e uma semana acordando às 4h30min de cada madrugada para refazer as coisas mais urgentes, já que as viagens, os amores e outras delícias deveriam ficar mesmo na memória das retinas. Computador funcionando a pleno, algumas aulas e planilhas contábeis refeitas, outros endereços novamente obtidos e salvos. Passavam-se 14 dias do fatídico evento inicial. Na noite que iniciava, o computador aberto, o cálice de vinho recém-servido. E Theozinho, o gato-bebê recentemente deixado na porta de minha casa. Bastou uma borboleta entrar na noite de luzes acesas para o pequeno felino amarelo saltar sobre a mesa. Um dano químico, desta vez, matou a tal placa-mãe. Atingiu-o no coração. Dormiu para sempre, meu ébrio computador.
L'ordinateur ivre saudou o ano da França no Brasil.

Nestas alturas do surto de taquilalia, devem estar-se perguntando por que diabos conto estas coisas tão prosaicas a vocês, que nem gato têm, tampouco bebem vinho e até costumam fazer cópias de segurança de todas as suas preciosidades? Conto porque, neste período de turbulências, recebi uns mimos e sequer agradeci. Tento, agora, recuperar estas gafes que só não são imperdoáveis pela imensa generosidade das pessoas de quem falo.

Algumas Alegrias

Primeiro foi a Guilhermina. Escreveu, de uma maneira ímpar, um post que me deixou boba, envaidecida, deliciada. Só não fiquei "me achando" porque generosidade a gente sente de longe, e os elogios são obras da delicadeza destas pessoas, muito mais do que merecimento meu por qualquer escrito. Mas, olhem só se não era para ficar assim: "Odiei Cecília, a quem sequer conheço, por ousar saber de mim sem nunca ter me visto e ainda me emprestar as palavras das quais me esgueirei nos últimos anos, com esmero e atenção. Como ousa ela me contar em primeira pessoa, como quem fala de si? São delas as palavras que desprezei como minhas, as que não quis e evitei. Mas, se são dela, como podem doer em mim?" Ou então: "(...)Não soube o que buscava naqueles dois bancos da casa de Cecília, a autora, a dona das redondezas. Como ela, estrangeira, ousava vasculhar-me as entranhas como um robô laparoscópio? Entrando por minhas fendas, invadindo as vísceras... Como ousava, à distância, identificar minhas cicatrizes de não esquecimento?"

Depois foi a Mara Faturi. Depois de mil-e-um convites seguidos por mil-e-duas desmarcações de cafés, eventos, encontros (sim, sou bicho-do-mato e minha casa é sempre o meu melhor refúgio), ela ainda teve o carinho de indicar-me a um prêmio, que passo a descrever aqui. Mara, querida, nem sei o que dizer, nem sei. Um muito obrigada de coração e um upa forte ajudam a falar, quando as palavrinhas somem?

O prêmio Arte y Pico foi criado com o objetivo de premiar blogs pela criatividade, material interessante e por contribuir com a comunidade de blogs, em qualquer língua. Além disso, o blog que receber o prêmio deverá repassá-lo para outros cinco blogs, que deverão seguir as regras abaixo: 1. O vencedor deve escolher cinco blogs que considerar merecedores deste prêmio por sua criatividade, material interessante, e por contribuir com a comunidade de blogs em qualquer língua. 2. Cada um dos cinco blogs selecionados deve incluir o nome do autor e um link para o seu site a ser visitado pelos leitores. 3. O beneficiário deve mostrar o prêmio (copiando a imagem acima) e indicar o nome e o link para o blog que foi entregue. 4. Todos os beneficiários deste prêmio devem incluir um link para o blog Arte y Pico para informar os leitores sobre a origem deste prêmio.Como é esperado indico, abaixo, os cinco blogs que considero mega merecedores desse prêmio:

1 - O blog da Valéria que, não canso de dizer, é um dos blogs mais lindos que eu já vi. Se vocês forem até lá, entenderão logo do que estou falando.

2 - O Marcos Pardim, sua crônica tão engajada sem ser chata, e uma poesia delicada. Também por sua constância por estas paragens virtuais.

3 - O Fernando Rozano, um prazer de leitura, a pluma das palavras acariciando as imagens.

4 - O Douglas D, a quem escancaradamente invejo.

5 - A Márcia Cardeal, com quem quero aprender a arte da sutileza, um dia.

(Queria tanto entregar este prêmio a outras pessoas, poetas fantásticos, escritores maravilhosos, professores instigadores. Pessoas que me estimulam, que me fazem crescer, homens e mulheres que me ensinam a ser algo melhor. Ainda preciso retomar, eu sei, duas gafes mais antigas. No próximo post. Esperem por novidades nesta casinha.)

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Gavinhas

O pai tinha umas vezes
uns arroubos de árvore
que se pensa eterna e
discursava claro
de dentro da esfera
quase mel-quase verde
dos seus olhos.

(eram olhos líquidos como o vinho)

Tinha umas coisas de
colono, depois do sermão
do padre.
Ou de oleiro que
se pensa Criador,
após modelar para mim
um estranho boneco
de barro.

Um dia,
debaixo das videiras, disse
- minha filha,
isso tu nunca que adivinha:
eu olho para as parreiras e
teus cachos têm
a mesma forma das gavinhas.

(Texto: CeciLia Cassal - Imagem, daqui)


Domingo, Abril 05, 2009

Nem

Nem que cessassem os tambores, se apagassem todas as luzes, nem que as cores emudecessem assim, de um momento para o outro. Não esqueceria. Nem que todos os deuses se dessem por derrotados e seus santos nomes fossem profanados, nem que os tempos houvessem chegado ao fim. Não esqueceria. Podia que o mundo desabasse de seus precipícios de desejo e saudade. Podia até. Que as verdades todas fossem abolidas. Que as tardes se sucedessem sem luares, sem auroras, sem manhãs. Não esqueceria. Mesmo que fizesses do teu silêncio o preciso alarde sobre o que nem sabes. Não esqueceria. Nem se me pedisses. Nem.

(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: óleo sobre tela - Leonid Afremov)

Sexta-feira, Março 20, 2009

Rio dos Ameandros

“- Eu nunca fui tão silêncio (...) Dobrar-se de dor e não poder gemer. Eu nunca morri com tanta eficácia. Depois da treva, há mais treva, mais treva, mais treva...”
(Helga, personagem do Rio dos Ameandros)

(Texto: CeciLia Cassal)



Quarta-feira, Março 18, 2009

Certeza

O desejo é
.
uma certeza
.
que sempre
.
pergunta
.
de novo.
.
(texto e imagem: CeciLia Cassal - Fernando de Noronha, Brasil)

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Eu estrangeira

Eu não tenho a calma dos tempos contados, tenho medo. Um medo que descubro aos poucos em tamanho, em velocidade, em imprecisão. Um medo que é atravessar uma rua e não dar tempo, uma demora em ver. Um medo como algo crescendo entre minhas frestas, algo que não sei de que cor será ou se terá alguma, a forma, o cheiro, um medo tão absurdo que só estremeço dele quando fecho a porta sem que nenhuma arma tenha sido apontada. Por mim. Eu não tenho a calma dos tempos pensados. Eu tenho essa saudade, fenda em terremoto, ferida que não descansa, menino que chega e eu não sei como tocar, se algo em mim desintegra. É isso, eu não tenho calma, essa ascese a um nirvana que sequer cobiço. Só tenho saudade, que é como desaprender uma língua, um gosto, um acento familiar e nada mais ter depois disso: um breu. Um medo que é como profanar um lugar onde nunca estive. Um medo que é como rasgar uma bandeira, eu estrangeira.
(Texto e Imagem: CeciLia Cassal - Baía de Juan Grieco - Isla Margarita)

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Poderosas Passagens

A Passageira da Paixão,
- Peregrina em Pasárgada -
Pensa Promessas Pelos Postigos.
Perseguindo-as aos Pares
Projeta Plenitudes.
Prisioneira da Palavra,
A Passageira da Paixão
Passeia Por Perigosas Pautas.
Procura, no Porto,
Perdidas Paisagens.
A Passageira da Paixão
- Pescadora, no Passado –
Precisa Pertencimentos, Poderes,
Perfumes. Pisa Pétalas:
Paralelos Prazeres.
(Texto: CeciLia Cassal, Parodiando Press; Imagem: Renato de Carvalho)

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Esfinge Contemporânea

Ele a decifrou.

Nela, aumentaram as ganas

de devorá-lo.
(Texto: CeciLia Cassal Imagem: Sandra Marques)

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

As tempestades e os espelhos

Falo porque a ausência suscita sublimações impossíveis e a língua destrava, na solidão pretensa.
É no escuro rasgado de raios que os espelhos escondidos durante a tempestade projetam suas imagens mais verdadeiras. Acobertadas. Renegadas. Traídas. Cruas verdades. Perigosas verdades, saudades impossíveis.
(Ao esconder, (re)vela-se o furor
que assombra o conhecimento prévio
e completo de tudo o que precisa ser sabido.)
Entre cada relâmpago, não estamos sós. Problema da realidade, salvação do sonho.
(Texto e imagem: CeciLia Cassal)

Amigos, que 2009 seja tempo de bons silêncios inocentes. Obrigada por todas as suas mensagens neste tempo. Não sei promessas de retorno. Mas sigo lendo, lendo, lendo... até!) Abraços saudosos.

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

(imagem: Vincent van Gogh)

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Matéria

Silencia a cor nos lábios antes sedentos.

Reverbera apenas uma distância.

(onde os olhos, que não mais me seguem?)

É feita de uma outra ausência,
a matéria das saudades.
(texto: CeciLia Cassal imagem: Ricardo Rosário)

Domingo, Outubro 26, 2008

Justificativas

Há algum tempo ganhei esta imagem de presente da Valéria, artífice de um dos blogs mais lindos que eu já vi. Foi criada a partir de um poeminha desta que vos escreve publicado aqui. Tenham uma bela semana.


Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Estrela, estrela - CeciLia convida

"Meu coração bate na ponta dos dedos, é alma de mosaico.
O cotidiano volátil modelado em bronze, esculturas de neblina, estrelas,figuras solitárias, reflexivas, fortes, frágeis, perplexas.
A vida com tantos segredos guardados; se desse para transformar tudo isso em brinquedos..."
Marilia Fayh

O resultado de um ano de e meio de trabalho duro – ela dedica, em média, seis horas de seu dia à escultura -, somado aos 25 anos de trajetória, poderá ser visto a partir do dia 28 de outubro, às 19h, na Galeria Casa Arte (Rua Cel. Bordini, 920), em Porto Alegre, quando Marilia Fayh inaugura sua nova exposição. A mostra reúne 23 peças em bronze, criadas entre 2007 e 2008 e poderá ser visitada até o próximo dia 20 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h, aos sábados das 9h às 13h.

As figuras que Marília esculpe em bronze são, em sua totalidade, femininas e sugerem muito da artista: ”é o meu universo que modelo”, explica. Seu trabalho é despretensioso e reflete seu cotidiano. Não estão ligadas a uma tendência ou estilo.

As estrelas são ícones recorrentes nas peças de Marilia. “As estrelas mudam de lugar. Tudo é impermanente e isto pode ser visto sob uma ótica de brincadeira”, reflete. “A vida é criativa, muito mais criativa que a arte. A realidade sempre me surpreende pela sua diversidade, pelo inusitado. Então vou captando e exprimindo a vida com seus matizes cotidianos. Os impressionistas não se cansavam de retratar a mesma paisagem, apenas usando o recurso da luz em horários diversos. Assim, eu uso a linguagem da figura humana, nas suas muitas expressões ensolaradas ou sombrias”, analisa a artista.

Escultora, pintora e gravadora, natural de Porto Alegre, Marilia Fayh graduou-se em Publicidade, mas foi nas artes plásticas que encontrou o seu caminho. Em 1980, inicia o fazer da arte informalmente no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, sendo aluna de artistas consagrados. Abre seu atelier em 1995. Em seu currículo, constam exposições individuais e coletivas em várias cidades do Brasil e do Exterior, como Paris, Madri, Roma, Toronto, Berlim e Amsterdã. Em 2000, foi premiada com a Medalha de Ouro pela escultura de bronze “A décima Lua Cheia”, pelo Comite D’honneur du Mérite et Dévoument Français, em Paris.

Serviço:
O Quê: Nova exposição de Marilia Fayh. São 23 peças em bronze
Onde: Galeria Casa Arte (Rua Cel. Bordini, 920), Porto Alegre
Quando: Abertura dia 28 de outubro, às 19 horas.
Visitação: a partir de 29/10, de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h e aos sábados das 9h às 13h.
Quanto: Entrada franca
Fotos: Zago
Informações: (51) 3013.1910 / 3013.1529
Contatos com a artista:
artfayh@terra.com.br Site: www.mariliafayh.com.br
Fones: 33384073 / 93193373
Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu (MTB 8679-4)- Fone: (51) 84016895

Terça-feira, Outubro 14, 2008

Helga

Na primavera do Rio dos Ameandros, o amarelo intenso dos ipês margeia a estrada. Há um quero-quero cioso do seu ninho e o som das marteladas de João Rudá no telheiro das lenhas preenche a manhã. Aqui, o silêncio quebrado de Helga, entre um e outro mate, contando-me...

“E então eu lhe pergunto: o que pode uma mulher sem saídas fazer, quando outra toma-lhe o marido?

Entregar-se ao desvario sem noite nem açoite, achar uma ponte escondida donde jogar-se, cruzar os portais da loucura cantando ladainhas na frente de um altar qualquer?

Pergunto mais: o que pode uma mulher sem saídas fazer, quando a outra que lhe toma o homem ainda no engalfinhado da Vida é a Inominável, Aquela a quem não se pode convencer do contrário, uma vez decidida a levar quem-quer-que-seja?

Pois então, era eu essa mulher. Nada sabia da vida sozinha, sem um parceiro para matear quando o sol acorda a vida depois dos vermelhos que acendem o horizonte, nada sabia das panelas sem cheiros que pudessem agradar a um homem faminto quando chega das lides, nada sabia como era não ter de quem cerzir meias ou limpar os barros dos sapatos, quando voltam das roças. Não sabia como era a cama vazia quando o frio chega, de não ter quem remexa o braseiro se ele ameaça amortecer, como era ver o pomar crescer sem poda nem colheita temporã. Quando o Seu Antônio-do-empório chegou com a notícia, ele que era o dono do rádio-amador e das notícias de todos em Rio dos Ameandros, pois foi quando ele chegou e me disse que meu marido tinha passado, foi então que eu tive que decidir.
E decidi mesmo, desse jeito que eu sempre achei bobagem que mãe dizia, que tinha uma hora que a gente precisava enxergar rápido a vida toda pra trás da gente e tentar adivinhar o que viria na frente e resolver rápido entre se deixar abater e apodrecer feito mulher endoidada, ou erguer a fronte e seguir em frente, foi nesta hora, que deveria ser de dor e tudo, que deveria ser de arraso e pranto e desespero, foi nessa hora mesmo que eu resolvi que queria seguir viva. Ainda não sabia bem como era isso, quantas contas precisaria fazer, quantas safras e quais por colher, quem iria me ajudar com os porcos, o soja, os milhos amarelando na lavoura. Também não pensei nas necessidades do corpo, nas carências de vozes e motivos, nos meninos que não tive esperando o melhor tempo e o tempo que nunca chegou de colher filhos entre as espigas do trigo. Foi nesta hora que tive a notíca da Derradeira e que sabia que precisaria estar viva.
Viva pelos cardeais no viveiro, viva pelas caturritas em bando que devoravam o milharal e enchiam o dia de alaridos. Bem que eu gostava das caturritas. Colocava lá os espantalhos de panos e palhas e milho, mas que elas me alegravam o dia com suas algazarras, isso não podia negar. Foi nesta hora, em que soube da morte do meu marido lá no hospital da cidade, de uma doença que eu ainda não tinha entendido direito o que era, foi nessa hora mesmo que – entre a raiva por ele ter me abandonado tão cedo e a certeza de que sentiria saudade - foi nesse embate de sentimentos que pedi a Deus, se ele existia mesmo, pra me manter viva.

O segundo motivo era João...”


Como escutando com o pensamento o chamado pela voz para ele inaudível de Helga, João entra na casa, nas mãos uma treliça de galhos cuidadosamente escolhidos, com os quais produziu um biombo para separar-me o quarto do restante do rancho que ajudou-me a compor, aqui no Rio dos Ameandros. Helga, entre o respeito e o recolhimento, volta às panelas.


(Texto e Imagem: CeciLia Cassal)

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Constatação




(Imagem: Marilia Fayh Texto: Cecilia Cassal)

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

(ad)Vertências

Organiza o Semeador
magníficos canteiros de flores
no vasto campo do céu.
.
(há dias poliniza-me
o pensamento
um anjo)
.
PROIBIDO A FLORISTAS
.
adverte o cartaz
na porta da nuvem
do Girassol.
.
(Imagem: Valdemir Cunha, do livro Pantanal: o último Éden - Texto: Cecilia Cassal)

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Nudez

Na terceira vez em que
a mataram, decidiu,
afinal, sucumbir.

Removeu alianças, brincos,
pingentes, outros grilhões
de palavras também.

Lavou em água corrente
as perfumadas volúpias
com que se vestia e partiu

n u a

rumo à primavera.
.
(Imagem: Ézaro Costa Texto: Cecilia Cassal)

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Kim, uma estrela

"Hoje o céu ficou
mais bonito.
Kim
transformou-se em
uma linda estrela".

Nada do que eu poderia dizer seria mais sentido, mais poético, denotaria mais despreendimento do que a mensagem que minha irmã enviou comunicando da partida do seu gato, que era um pouco da família de todos nós. Kim teria hoje, fosse ele meramente humano (ele era bem mais do que isso), 126 anos. Era um ancião sábio.

Hoje entregou ao céu um pouco do azul dos seus olhos. Deixou-o mais bonito.

Beijo, Cá. Teu coração imenso soube mais uma vez ser generoso para além da posse. Que Deus abençoe a nova Estrela.

(na foto, Kim)


Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Sobre a liberdade e outros renascimentos

O dia entrega-se-me em grãos opulentos de alvura e o sol me cumprimenta livre. Não há no mundo um tão numinoso momento. Para cheirar o mar. Olhar o mar. Voltar ao mar. Provar do vento morno que a noite não tratou de arrefecer em bondades delgadas sobre a pele de há muito intocada. O dia envolve-se de minhas alvuras e a areia me sentencia: livre. É vasta de arrepios a água quando explode nas pedras e é música de marola, quando volta e volta e volta. E volta para embalar o barco, para tocar os joelhos, para benzer dos dedos as pontas, aos dentros mais escondidos de sozinhez e escuridão passadas. E volta para ondular os cabelos e deitar luminosidades de prisma através das pestanas molhadas. Porque o dia assim vivido é grão, granada, gratitude, grandeza de horizonte, oração de tributo à plenitude. E é desassombro, descanso, esperança sem precisão de nada esperar. É prontidão ao destino que vier e é paz sem medida. Porque o sol me reconhece livre.
(texto e imagem: Cecilia Cassal - Mucuripe - Fortaleza - CE)

Segunda-feira, Julho 21, 2008

As rugas e a liberdade

"Se as rugas na face são inevitáveis,
não permita que elas se inscrevam no coração.
O espírito jamais deve envelhecer."
James Abram Garfield


Era um abril do início dos anos 90 e a faculdade andava pela metade. Quem a surpreendesse no ato solitário de escrever a frase no quadro verde antes da primeira aula da manhã, apenas confirmaria que era a cara dela tal manifestação. Aquela menina esquisita gostava de discussões filosóficas e de pensar sobre os múltiplos sentidos de todas as coisas. Mais tarde, o professor leria demoradamente e então perguntaria quem havia escrito. Diante do silêncio expectante da turma, ela levantaria a mão. Ele discorreria longamente sobre o envelhecimento poder ser visto como um evento bom, natural e digno, que as rugas na face podem contar histórias e serem até bonitas. Ela pensaria haver levado uma lição e se julgaria um tanto tola. Daí, coraria. E calaria, por timidez e vergonha.

Por força do ofício escolhido, hoje ela sabe que os vincos na pele podem ser postergados, prevenidos, corrigidos por um tempo ou mesmo para sempre. Hoje ela sabe que um punhado de trabalho manual, um monte de tecnologia, uma montanha de conhecimento e uma cordilheira de bom senso conseguem resultados estupendos sobre as tais rágades. Já sobre a capacidade das pessoas de acolherem a própria velhice com respeito e simpatia, é outra conversa. Para uma cultura onde ser jovem é o que conta, onde as mães cada vez mais querem parecer-se com as suas filhas, quando seria tão mais natural o movimento inverso, o de ser tão admirável como gente que as filhas quisessem assemelhar-se às suas mães, quando os pais querem ser “pegadores” como os filhos e disputam as mesmas meninas nas festas, as rugas são importantes sim. Negar seu efeito devastador sobre esta necessidade de aparência up-to-date seria de uma estupidez sem tamanho e ela sabe disso.
Entretanto, rugas não são uma preocupação de uma menina aos vinte e poucos anos e não era nelas que ela pensava quando transcreveu tal frase. O que lhe causava um estremecimento de admiração sobre a palavra do presidente Garfield, era a parte que falava no envelhecimento do espírito. Era nisso que ela pensava, as mãos brancas de giz, as pontas dos pés para escrever bem alto no quadro verde. Era sobre a forma como algumas pessoas envelhecem – a despeito de suas rugas ou da ausência delas. Ela sabia da feiúra manifesta da senilidade do espírito quando encontrava pessoas acomodadas a aparências que as mantinham em um estado perene de semi(in)felicidade. Sabia, por algum conhecimento que nem ela comportava direito, que a velhice do coração vem da hipocrisia da manutenção de estruturas falidas nas instituições, nas ideologias, nas relações interpessoais, nas relações com a própria consciência. Sabia que a vergonha da velhice é a vergonha de olhar-se no espelho e saber poder ser melhor do que se está sendo e não empreender esforços para mudar. Apesar da pouca idade, a menina sabia que os sonhos abdicados cobravam seu preço e – fosse hoje – saberia que este valor é muito mais alto do que o custo do melhor dentre os cirurgiões plásticos, mais alto do que quaisquer toxinas botulínicas, fios de qualquer nacionalidade ou todos os preenchimentos de sulcos. Saberia que paralisar os músculos é fácil, que o difícil é alongar a própria liberdade.
Diante do professor a menina calou, por timidez ou insegurança. Mas tinha clareza sobre a velhice que haveria de ter.

Texto: CeciLia Cassal. Imagem: Claudia Azedo

Terça-feira, Junho 17, 2008

Ele e Ela

Ele corta a grama e conserta portas. Ela arruma as camas e prepara massas. Enquanto ele resinga os tempos e modos novos, ela joga infindáveis partidas de paciência contra o computador. Ele tem a generosidade da permanência; ela, da disponibilidade. Ela conserta roupas e planta temperos. Ele ensina ao neto o trato com os cães e a escrita dos números. Ele oferece territórios. Ela acolhe. Getúlio e Clara, pessoas tão comuns. Clara e Getúlio, tão especialmente discretos. Era Dia dos Namorados e a última jura que eles devem ter trocado – suponho – foi no altar. Há cinqüenta anos. Getúlio e Clara não sabem discursos amorosos, no entanto dão testemunho de paciência, solidariedade, aceitação. E uma orquídea amarela com um cartao de letras desenhadas a capricho. No dia dos namorados, sem alarde como na vida inteira, meus pais completaram cinqüenta anos de casados. Minha admiração e respeito. Meu amor e gratidão.

(texto: CeciLia Cassal - imagem: José Vieira (obrigada, Renato Mattos Motta)

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Escuros

para Irene

Na noite que cursava funda, Inácia não dormia. Tentou escutar o grão do silêncio se abrindo nas horas de trevas. Nada. Prestou atenção a remotos zumbidos de pernilongos no quarto. Nada. Nem um grilo desvirginava, com seu grito, a mansidão pesada e quente de janeiro. Nem os porcos, nem mimosa no curral, nem. Estreitou os olhos para ver a sombra da persiana e seus vãos fazendo listras no teto. Era pouca, a lua lá fora. Por várias vezes, cobriu e tirou o lençol do corpo quente. Descoberta, começou de novo, o lençol puxado devagar, o pé, a perna, a coxa. A coxa. Teria ainda aquela cicatriz na parte de trás? As mãos tateavam a pele, os flancos, os relevos outros: nada, noite escura demais. Ao lado, o travesseiro amassado na metade vazia da cama.

Osvaldo andava nervoso. Quase adormecida, percebeu quando ele levantou. Não dormia bem há tempos, Osvaldo. Como também fazia tempos, não tinha ganas de homem com ela. A safra do ano passado, perdida pela seca. A chuva chegando na hora errada apodrecendo as sementes recém-plantadas. O financiamento do banco vencendo, a cooperativa pagando pouco pelo pouco que ainda tinham a entregar. Osvaldo não se abria com Inácia. Tantas vezes, a manhã nascendo, ela ouvia do quarto Osvaldo preparando o dia. Inácia gostava das horas da manhã, antes dos meninos acordarem. Os ruídos do mate sendo cevado na cozinha, a bomba do chimarrão deitando barulhos na pedra da pia, a lata da erva sendo aberta, depois fechada, a água chiando. Lembrava-se do pensamento recorrente, neste momento: “a água do mate, chiando, é Deus pedindo silêncio”. Levantava-se descalça, puxava a cadeira para perto de Osvaldo. Pelos pés arroxeados da pedra fria, um dos poucos momentos ternos: ele os esfregava até aquecer e encobria com o pelego. Comungavam da aurora pelo tempo de um termo de mate. Por Inácia, assim seria para sempre. Um dia, depois de um suspiro, ele desabafou: não sei mais o que fazer, negra, não tem mais jeito. Ela confortava: tem, sim, posso trabalhar, os guris já são grandes, podem te ajudar na lida. Ele: deixa os piá. Precisam é de estudar, pra não saberem de aperto. Bastou isso para o silêncio de facão mateiro cortar a varanda em duas metades.

Na noite que cursava funda, Inácia não dormia. Como dormir sono inteiro era luxo que os últimos tempos não permitiam, resolveu sair da cama. A noite escura demais. Silêncio demais. Pela fresta da porta, o vagalume do cigarro aceso na varanda. Ainda pensou compartilhar – escuro e silêncio – mais aquela insônia. Desistiu e voltou para a cama. Mais tarde, ele também voltaria. Ela então chegaria mais perto, a coxa de onde sumira a cicatriz ainda tentaria provocar o homem que morou nele. Adormeceu, sonhando noites melhores. Pressentiu quando ele entrou no quarto, depois saiu. Ouviu-lhe a inquietude abrindo a porta do quarto dos meninos e tornando a fechar. Teve medos por Osvaldo. Lembrou do dia em que, o ventre prenhe e avantajado, foi buscar o tacho da ordenha no galpão e encontrou o sogro pendurado lá no fundo, os pés roxos balançando as unhas sujas de barro, os garrões encardidos do vermelho das terras. Depois, mais nada. Acordou dores de parir e nunca mais quis pensar nisso. Por que lembrava agora, tanto tempo passado?

No fim da noite que cursara funda, Inácia levantou descalça, os pés gelados de pedra ansiando pelego e colo. Osvaldo não estava. Aqueceu a água do mate e pensou a água do mate chiando é Deus pedindo silêncio. Olhou para a mesa vazia sem imaginar que, naquela mesma mesa, em alguns dias, dividiria com os filhos os afazeres de lavoura, chiqueiro e curral.

(Imagem e texto: CeciLia Cassal)

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Óculos

“Estranho, o seu olhar.
Lembra mar, sendo castanho.”

Era uma mulher bem resolvida. Porque gostava do Tempo e seus signos, celebrou a chegada da quinta década como quem recebe um amigo há muito aguardado. Não se perturbou quando o espelho evidenciou as primeiras rítides permanentes nos entornos dos olhos e nos cantos da boca, nem procurou disfarçar os incipientes excessos revelando-se nas ancas. Nunca tivera muita empatia com as crises relacionadas às idades. Talvez ficasse devedora para sempre à vida da difícil tarefa de aprender a surfar, mas nem isso roubou dela a serenidade quando viu, além da segunda curva, a aproximação da sexta década de vida anunciar-se sem vertigens. Ganhou do mundo bem mais do que esperara e isso era aparente no brilho com que o olhar saudava aos eventos mais banais dos dias como autênticas Revelações. Um dia, as estradas do mapa da próxima rota pareceram embaralhar-se com as letras dos seus destinos. Espreitou - pela milésima vez - o papel desfigurado pelo semestre andado na bolsa. Foi só então que assumiu verdadeiramente o primeiro sintoma do tempo acumulado: o turvamento nada poético da visão de fora. Desconcertada feito uma colegial, a mulher bem resolvida mandou aviar seu primeiro óculos.

(Epígrafe: desconheço o autor. Texto: CeciLia Cassal)

Terça-feira, Maio 13, 2008

Sobre os absurdos umbigos – por quem esteve lá

Porto Alegre, 12 de maio de 2008.

O Programa: Fronteiras do Pensamento – Salão de Atos da UFRGS
Os Convidados da Noite: Fernando Arrabal e Gerald Thomas

O absurdo:
Após o encerramento abrupto da apresentação do dramaturgo Fernando Arrabal, que não pretendo comentar aqui, entra em cena o segundo convidado, o teatrólogo Gerald Thomas. Das coisas que lembro de ter lido sobre ele, falam sobre fazer parte do grupo que escreve os discursos do Barack Obama, de ter sido entrevistado no Manhattan Connexion, de ter sido casado com a Fernanda Torres, de ter se declarado um homem de nenhum lugar (Nowhere man), das peças esquisitas que minha burrice estética contemporânea ou meu provincianismo não me deixaram alcançar o significado, etc... Sobre esta última afirmação, tenho a confessar que ainda hoje sofro de dificuldades de entender um monte de ganchos de açougueiro ou de garrafas pet amontoadas em um canto como instalação artística, mas repito, este é um problema da minha formação.
Devidamente aplaudido pela platéia em sua acolhida, inicia assim a apresentação: “eu não trouxe crocodilo para o palco (em alusão à apresentação anterior). Já superei o teatro do absurdo” e segue com outras descortesias: “eu nem sei pronunciar o nome disso aqui”. E pergunta para alguém da platéia, que repete URGS, muitas vezes. Descaso. Movimenta-se pelo palco: “deixa ver quem está aqui me ouvindo... há alguém jovem por ai?” ao que algumas pessoas devem ter acenado – “é, vocês até são bem bonitinhas. Eu iria para a cama com vocês”... Insatisfeito com tal performance, revela a informação absolutamente relevante de que há dias não lava os cabelos, pois informaram-lhe que aqui em Porto Alegre faz um frio do cão “se é que frio e cão, assim, juntos, faz algum sentido”. Na continuação, faz com que exibam sua foto com Samuel Beckett e pergunta se alguém da platéia sabia o que era Finnegans Wake (detalhe: Donaldo Schüler, um dos organizadores do evento, na platéia, foi o tradutor do Joyce em questão, pelo que foi homenageado diversas vezes). Desta forma e de muitas outras, o Senhor Gerald Thomas exibiu uma noite de sucessivas grosserias com o povo gaúcho, apresentando-se sem qualquer preparo, declarando não gostar mais deste modelo de apresentação, que não gostaria de estar aqui (certamente que havia alguém, por detrás das cortinas, apontando-lhe uma arma para que falasse). Pena. O ciclo de altos estudos que o Fronteiras representa desperdiçou uma oportunidade e não foi feliz na escolha do convidado. Não houve debate, senão uma representação de um ego gigantesco. E viva os umbigos! Mais da metade da platéia, inclusive eu, saiu durante a apresentação. Cansou de ser insultada e desrespeitada.

Fiquei com vontade de dizer-lhe algumas coisas. Digo aqui:

- Gerald Thomas, Porto Alegre também não é o seu lugar. Volte para o seu lugar nenhum.

(Texto: CeciLia Cassal, Foto: Edgar Morin, o primeiro e melhor palestrante até aqui. Em seus 82 anos de sabedoria e simplicidade, veio da França para honrar-nos com o seu alargamento de Fronteiras)

Segunda-feira, Abril 28, 2008

A noite

Não há certezas, meu amigo,
apenas possibilidades,
e nem todos os teus saberes
servirão um dia para a cura

Senta-te ao meu lado, quieto,
e fecha os olhos à tarde que cai.
Neste lugar a vida inteira não é mais
que um bocado de tempo juntos.

Não há mistérios, meu querido,
não os há, quiçá segredos,
nem pertencem à tua boca
todas as minhas verdades.

Entrega-te à penumbra,
mansamente, depois te ausenta.
É mesmo tão parca a clareza.

A noite virá longa demais.
Cerra teus olhos e deixa.

Paulo Renato morreu. Ontem, domingo, no dia seguinte à homenagem que lhe prestamos. Teve a delicadeza - sua companheira eterna - de recebê-la, antes de partir. Vai em paz, Paulo, vai em paz. Vê se alegra, com tuas piadas, os anjos arteiros do céu.

(texto e imagem: Cecilia Cassal)

Domingo, Abril 20, 2008

Paulo Renato

Amigos,

convido-os a participarem, colaborarem, divulgarem este evento. Como poeta integrante do 5 in Verso, o Paulo Renato é parceiro de uma sensibilidade ímpar.
Como professor, médico, psicodramaticista e amigo, é alguém em quem a Vida confia e a quem - como é da vida fazer por vezes, aos mais fortes - expõe a provas duras.
Nós, do 5 in verso, estaremos lá na Livraria e Café Palavraria (Vasco da Gama, 165, Bom Fim, Porto Alegre), das 18 às 20 horas do dia 26 de abril, sábado, declamando os poemas do Paulo Renato.

E vocês? Virão?
A cidade e eu

A umidade entra
pela sola dos sapatos
e o molhado das ruas
me vai aos ossos

A cidade dissolvida
(dissoluta?)
me invade, impune

Comungo contigo,
tardio berço da acolhida
e te acordo com o eco dos passos
de quem vai pro nada

Paulo Renato Rodrigues

Sábado, Abril 12, 2008

Do meu coração

Gosto do Neruda: “venho dos seus braços, não sei para onde vou. Do seu coração diz-me adeus uma criança. E eu lhe digo adeus”. Acho que é assim que foi escrito. Ou então é deste jeito que a memória forjou, ou que queria que fosse. O Rio dos Ameandros me espera. De todos os corações, acena-se-me um adeus relativo, compreensivo, parcial, esperançoso ou triste. E eu lhes dedico outro tanto de despedidas cálidas, envergonhadas, esperançosas, amedrontadas. Vou para um Rio dos Ameandros que, não sendo Pasárgada, oferece-me frutos frescos em redes recém-puxadas. Inapetente, devolvo-lhes ao manancial. Preciso apenas de ar e silêncio. Muito silêncio. Alguma espuma do refluxo das marés a se sucederem. A solidão dos urubús empoleirados sobre postes na orla vazia. A calma alegre do dia quando amanhece e nada há para esperar além de mais vinte-e-quatro-horas à frente. A cumplicidade dos capins crescendo em meio a paralelepípedos sonolentos. O rádio do vigia noturno do prédio de fantasmas ao lado. O vento zunindo escuro na noite deserta de venezianas cerradas. Do meu coração acena uma criança convalescente. Retribuo-lhe, abrindo as cortinas para o mar.
(Ausento-me, por uns tempos. Aguardem. No retorno, novidades do Rio dos Ameandros. Abraços.)

(imagem e texto: Cecilia Cassal - Lagoinha - Florianópolis - SC)

Quarta-feira, Março 26, 2008

Porto (muito) Alegre - 236 anos

A cidade amanheceu linda e nem ainda era abril. Tivera já seus tempos de Guapuruvús, Paineiras na praça XV, Jacarandás, até o sólido amarelo dos Ipês. (Alguém já disse que as estações em Porto Alegre são marcadas pelas cores de suas árvores, e eu acho isso de uma profundeza séria). Gosto aqui de cenas que nunca enxerguei, portoalegrense de adoção. Venho do Rio dos Ameandros e nada sei dos reflexos nas vidraças, quando entardece. Da lua cheia, quando ilumina o farol de Itapuã e evade-se, marolas afora, pela Lagoa dos Patos. Nada sei da cor ímpar de seus morros em dias de chuva, da chuva sobre a Ilha das Flores, de catar misérias nas sarjetas. Mas sei que Piazzola deveria ter nascido aqui. Sua música no pôr-do-sol encontraria boas companhias e seria sempre incomum, por estes pagos. A cidade assumiu seus outonos e filtrou-se, luz limpa e ventos alvissareiros, pelas árvores da Dona Laura. Todas as ruas, todas as faces, das pétalas do Dometila à mesa de canto no Bistrô do MARGS, dos políticos do Copacabana ao cadeirante simpático que pede auxílios numa esquina da Ramiro, da mesa no jardim do Constantino ao café em pé nos bares da rodoviária. Porto Alegre é tanto mais do que a comemoração precisa pelos seus 236 anos! Pena que ainda não seja abril. Sim, porque em abril ela desfolha-se em alaranjados plátanos recobrindo os caminhos do mate, no fim da tarde do Parcão. Porque em abril ela será para sempre toda encontro nas calçadas, ramas de flores brancas em envelope de ráfia, namoros medievais. Antecipou-se, a cidade, em sua festa. Mal sabe ela, mas o tempo preciso é abril.


Texto: cecilia Cassal. Imagem: edição especial Correio do Povo




Domingo, Março 09, 2008

Aço e Nada

Ele saiu correndo e era bem de manhã. Amarrou os cadarços e a coragem, arranjou a contenteza nos olhos e partiu com o vento, espada solar. Esqueceu promessas e benesses e desmanchou-se céu afora. De onde estava, desdenhou da correnteza da vida besta dos livros de auto-ajuda e emprenhou-se de uma felicidade não comprada pelo relógio-ponto. Andou à noite pelas ruas sem saber ao certo quem era. Onde a inteligência suficiente para ser especial?, desdenhava-se. Desmembrava-se pelo avesso, os dentros atraiçoando os mistérios do signo. Quando teve saudades de cavalgar poemas, reencontrou o passado e amaldiçoou as visões proibidas aos frágeis. Divorciou-se e entregou a solidão a um sapato abandonado na rua, não queria dar chances de retrocessos. Quis conhecer as timoneiras do metrô e os pilotos anônimos que deixavam escritas brancas em linhas sobre o céu. Transitou nas noites insones entre a paixão e o devoramento da rotina e abominou os fins procrastinados. Analisou os mapas virgens inscritos em fotos antigas e perscrutou tartarugas milenares. Mas era de tarde e havia no amor a urgência dos amantes emaranhados e medrosos durante duas eternas horas. Adivinhou a vida secreta das mulheres santas e loucas e perdidas e ricas numa nudez de lamber sal e cheirar gozando pedras impronunciáveis. Foi Jeremias, Dante, Alexandre, Lucrécia e Hamlet: quando viu, a vida passara. Apaixonou-se de novo num instante para depois desdenhar de rosas vermelhas, chocolates e Joyce. Outro dia, construiu nos olhos marimbondas casas e brincou barranco monstros enxurrada maviosidades outras. Teve pensão do passado e declarou-se inventor da substância impalpável da poesia.
Aço e Nada, o livro do Rubens da Cunha, traça retratos cotidianos de uma delicadeza contundente. Por outro lado, aço é nada perto da solidez de suas construções. São idéias, muito mais que palavras, semeadas nas entrelinhas.
(Texto e imagem: Cecilia Cassal - Um Trem para o Tigre)

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

porque ele não vem


A noite não lambe das ruas
A ruína do dia
Nem irrompem das trevas
seus próprios fantasmas rotos
de tédio e devaneio.

Porque ele não vem.

Por hora o medo
Apressa as coisas indevidas
E reabre túmulos deixados entreabertos
E murmura ruídos de puro horror
E exibe carcaças de barcos deixadas
À deriva.

E ele, que não vem.

E se viesse ele
E rasgasse os véus em destemor
E destravasse os ferros dos grilhões
E corrompesse as lógicas insanas
Roídas de rotina sem sofreguidões?

Mas ele não vem.

E porque ele não vem
O dia enfrenta seus mesmos velhos ocasos
E as naus são túmulos que
Já nem uivam degredos.
Tampouco jamais navegam.

Tudo é fantasma, medo e silêncio.

Porque ele não vem.
(texto e imagem: Cecilia Cassal - Canal de Beagle - faro Les Eclereurs)

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Da fidelidade dos cormorães

Volto como volta o vento frio da cordilheira:
sem estação, sem paradeiro, sem destino conhecido.
Meu nome é incerteza.
Mas de dentro do dentro dela,
Atraiçôo meu próprio nome: sempre volto.
Fiel como volta à amada um cormorano ilhéu.

Há um minuto era somente calidez de sol
sobre a neve. E eis que volto.
Antes que me percebam pelas velas recém-enfunadas
ou pelas frestas das janelas uivando-me à passagem,
reapareço.

Clandestino através das vestes,
enrijeço os bicos dos seios das mulheres
e as mãos artrosadas dos velhos.

Porque é do vento voltar e debandar
feito ave migratória para os confins do mundo,
sempre volto.

Fiel como um cormorano em uma bahia gelada,
Eu volto.

(Imagem e texto: Cecilia Cassal. Cormorães em Bahia Lapataia)


Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Riquezas

Trabalho forte
e sempre para não ter
de acumular riquezas.

(quase sempre sou
ávida nas chegadas
e plena nas despedidas)

Há um cansaço que
não se dobra
nem se amarfanha
no fim das tardes.

(são sempre
os lençóis depois, bem depois,
a apacentarem-me as dores)

Luxo é resgatar
- ao diabo -
a alma hipotecada.

(imagem e texto: Cecilia Cassal - Mercado Público, Santiago do Chile)

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Lealdades


Chega uma manhã de névoa cinzenta e acordo obnubilada do inverno de hibernar sementes. Há muito prefiro a solidão das castanhas ao silêncio populoso das romãs. Era março, quando voltei ao Rio dos Ameandros e desde então lembro cenas esparsas, onde o olhar de João Rudá parecia mais soturno em sua mudez. Olhava-me como quem não entende. Olhava-me como quem quer fugir. Olhava-me como quem gostaria de não permitir, tivesse ele essa possibilidade. Lembro de ter percebido Helga algumas vezes, mas o que via eram as costas um tanto encurvadas de uma Helga eternamente preparando caldos no fogão. Estranho lembrar só o dorso de alguém. Sobre a mesa com rendas e flores frescas, os caldos eram substituídos intactos e frios, um após o outro. Assim como os chás de Cidreira, esfriados em abandono em canecas de barro.

Cheguei aqui uma semana após a Intervenção. Dormi demais, neste tempo. Creio ter escrito cartas que jamais foram enviadas, não sei. Ou então preenchi com uma memória falsa este tempo sem importância, interregno entre duas estações. Mas agora parece que acordo. No tapete de tiras ao lado da cama, Thor permanece enroscado. Está emagrecido, ele também, e vai à rua o tempo suficiente para não sujar a casa, depois volta. Ava mantém-se atenta, ativa, irrequieta. Acompanha João nas lides do jardim e do pomar que começa a florir. Como dois aspectos de uma mesma criatura, os labradores expressam seus contrastes. Aos poucos, elaboro coisas que ainda não me vejo pronta a comentar, vejo mudanças em mim e em Helga, já não tão feliz. Só mesmo os cães e o silêncio absoluto de João comungam do conforto das coisas que não mudam em sua lealdade eterna.
(texto e imagem: Cecilia Cassal)

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

Nas torres da alfândega

Nunca tive as imunidades
necessárias para transpor
fronteiras: contrabandeio idéias.

Sempre faltou uma marca
que ainda não houvera sido feita.
E tive medo, todas as vezes
quando a procuraram.

Bem cedo tentaram forjá-la,
riscá-la sem fogo mas com força
nas peles de dentro para fora:
sou tão ruim que nem
cicatrizes crio, me diziam.

Hoje aceno aos guardas
porque permitem-me
as passagens. Não carreio
pestes: sou outro tipo
de clandestina.
(imagem: Ponte sobre o Rio Jaguarão. Desconheço o autor, repassada pela Márcia Rockett)

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Cantiga para o Recomeço

Por entre os carros e através dos dias e por detrás das falas, eu me perguntava por onde andavas quando eu era insônias e desterros e solidões. Onde estavas, quando não te via no capim alto dos beirais de estrada, nas arestas duras dos picos gelados, nas praias vazias, nos ancoradouros órfãos de embarcações, onde? Quando te procurava entre risos e urgências, por que não achava?
Eras, acaso, algum rosto rosto entrevisto e esquecido, entre tantos a acordarem-me a timidez dos olhos baixos e dos meios sorrisos, outro dia, pela rua?
Hoje sei de um saber que sempre tive, mas houvera guardado sob as pedras do esquecimento, não eras tu quem te escondias. Eis que calha agora ser de tarde e a tarde é sempre essa exuberância de cigarras e estridências e andorinhas, quando os recomeços chegam. É de tarde e eu sei para sempre teres chegado.
Eis que o silêncio muda seu tom e, se assim chegas, é que só nessa hora tenho-te ouvidos.
(foto e texto: Cecilia Cassal)

Domingo, Outubro 28, 2007

Convite


Sexta-feira, Março 30, 2007

das desistências


Amanhecem, nestes tempos duros,
minhas certezas velhas.

E como um rio que, tendo desistido do seu curso,
de súbito interrompesse seu fluxo
e resolvesse retornar ao manancial subterrâneo donde veio;

ou como a ave que estranhasse a manhã
e resolvesse deixar-se abater
sem que um só tiro a alcançasse

e a canção abdicasse de seu espaço
e se entregasse ao silêncio assim,
ainda no meio de uma nota em semi-tom,
.
.
minhas certezas desistem.
imagem: Paulo Lopes, Fenda

Domingo, Março 18, 2007

Impossíveis levezas

Eu queria escrever flutuações
como quem caminha sobre o arroz:

sem deixar marcas
do outro lado do papel.

Eu sonhava enxergar
com a transparência
de quem não precisa descerrar
as pálpebras.

Saber desenhar
brancas nuvens no azul
depois andar sem queimar
os pés sobre as brasas do sol.

(Mas a saudade pesa
e arrasta:
cavalo xucro que não se presta
a cabrestos.)

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

Pretensões


Eu preferia jamais ter tido a pretensão das enxurradas, das geleiras, dos largos vôos. Eu queria não ter sabido nunca o gosto da chuva, a aspereza da pedra molhada, a pena branca descoberta mil vezes na beira da praia. Ou na orla da pele. Eu não sabia que doía tanto quando a gente conhece. Eu não pensava que ficaria desse jeito tonta quando a hora chegasse de abrir os olhos e a claridade. Como ofusca o dia quando não se usam lentes! E não pensava que vertigem fosse uma ventania longa e lenta e que fosse um outono e um verão e tantas temporadas alternadas de susto e alegria. Não me foi dito isso e nem tampouco o outro. Mas assim é. E eu, que tinha a pretensão das certezas embalsamadas, e eu que tinha a suposta sabedoria das décadas acumuladas, e eu que imaginava que sentir era tudo. E eu, que não era nada.

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

Epílogo

Escrevo. Não. Melhor não. A vida é rota, incoesa, e por demais desinteressante. Não merece registros. Não escrevo.
Ou escrevo e então delato (me)? Ou apago e deleito (me)? Ou assino e delito (me)? Ou ignoro tudo e deleto (me)?
Não. Escrever é produzir epílogos do não iniciado. Sumarizar o diáfano. Documentar o não-acontecido. Testemunhar em falso. Dar (in)versões do impalpável. Melhor não. Definitivamente Não.


(foto: Thanatos artificialis, de Daniel Martins)

Epílogo

De um certo modo, a Sra. C. agradeceu quando a cena foi-lhe entregue inteira no monitor do vídeo de segurança. Ele esgueirou-se. Olhou em volta. Avançou através do corredor. Era meio-dia de um dia cheio de luzes. (Luzes são presentes, quando se retira a opção da treva). Alguns passos, o suor a grudar os cabelos no pescoço. Taquicardia. Olhou novamente em volta. De propósito, desconsiderou a câmera no corredor. Essa a glória dos crimes (im)perfeitos, precisam ser desvelados. Clamam para que se lhes arranquem das sombras, que se lhes exponha no cerne a cretinice ou a inteligência dos mandantes. A execução bizarra que deixa pontas. Na ponta do fio que leva ao minotauro, a obviedade de Teseu. No corredor, as dobras do tapete puido erguidas, a umidade dos tempos escuros a escorrer das paredes do hotel de quinta. Decrepitude. Ausência. Senescência programada. Apoptose. No último ato, as mãos ansiosas dele colocaram sob a porta o bilhete amarfanhado. Dava contas do passado e ria. E ria. E ria.

Tendo encontrado o desfecho necessário para concluir O Livro das Solidões Infelizes, a Sra. C. fechou-lhe as páginas e cerrou as pálpebras. Logo, a última gaveta receberia – para jamais ser editado – o seu penúltimo mau romance.

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

Casa

Terça-feira, Dezembro 26, 2006

Travessias

(foto: CeciLia Cassal)

Do faro setecentista
a gente vê ou pressente
através do rio que é de prata
(pero solo en noches de plenilunio)
tão longe, o porto distante.

Na segunda hora
da tarde
solta as amarras
o último ferry-boat.

(Era Colônia de Sacramento
do lado de cá
e eu queria – mais que tudo –
um destino novinho, improvisado,
de chofre arrancado
da cartola,
do alforje, da algibeira.
Um destino fresquinho
como estes que a gente
leva a vida pensando
que um dia vai fazer.)

Do lado de lá era um puerto
Madero
e suas austeridades.
Um puerto
e seus cosmopolitismos.
Do lado de lá, a sofisticação
das gentes bonitas
nos bares de meia-luz.

Havia entre os dois
um rio-quase-mar
que era mais Prata
em noite de lua cheia.

(E tudo de que precisava
era a impossibilidade
de uma travessia ousada,
uma escolha de última hora
para a vida toda)

Depois das quatorze horas
partiu o último barco.

Mas tu eras tão puerto
Madero
e eu tão colona
- de Sacramento.


(A vida é mesmo estranha. Por vezes nos rouba a palavra. O mote - porque ou embora forte - estanca no ar o gesto. Por todo este mês nem uma frase organizada conseguiu sobreviver às correrias. A alma se escondeu em paragens distantes, mas devidas. Gostaria de desejar a todos - especialmente aos que não consegui responder os gentis comentários no último mês - um 2007 das melhores travessias. Tomem seus barcos, cruzem o rio. Sim, eu sei lugar comum, mas a vida é rápida demais para hesitações. Cuidem-se bem, mas não impeçam seu curso. Abraços.)

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Vermelhos

(foto: Marco Ricca)
Uma das primeiras providências que tomei antes de mudar de vez para o Rio dos Ameandros foi não ter ao alcance caneta ou computador. Não queria a tentação de registrar minha história verdadeira, nem a de antes e muito menos a que vai se passar nesta nova vida que espero que chegue, daqui para adiante. Tampouco não queria que - caso escrevesse uma história inventada - alguém pudesse tentar adivinhar-me fazendo inferências sobre o que não aconteceu. Ou mesmo sobre o que possa ter acontecido. Do meu passado, suspeito que intuitivamente João Rudá tenha um conhecimento muito próximo da verdade. Percebo isso pelo jeito como ele me olha, quando me vê plantando. Ou então quando - no silêncio que lhe é peculiar - me encontra entre temperos e se retira, discreto, como para não ler-me sequer as lembranças, nesta hora de desvelamentos. Mas João Rudá não fala e, assim, me preservo.
Só que agora preciso deixar um registro, então valho-me do pequeno gravador que trouxe de presente à Ana Letícia, a neta do dono do armazém. Como ainda não o entreguei, sirvo-me dele.
Este que agora espera no portão, não sei se devo recebê-lo. A que virá, numa hora destas de noite escura, principalmente depois do que aconteceu ontem? Sim, sei que fui precipitada, que o impulso - este mesmo que me fez silenciar a vida em Rio dos Ameandros - falou outra vez mais alto. Mas não podia deixar que ele ficasse lá, impune, a prepotência feito criatura, dizendo de mim o que não se deveria dizer a ninguém. Naquela hora logo antes do jantar o armazém do seu Eleutério, o gringo, estava quase vazio. Depois que pedi as coisas da lista que havia levado, leite, biscoitos, pó-de-gafanhoto, o acendedor para a pequena lareira que o bom João construiu junto ao fogão de tijolos, bem no centro da casa de um só cômodo... sim, foi quando pedi o acendedor e seu Eleutério não sabia o que era, que eu expliquei: aquelas barrinhas feitas de serragem aglomerada, com uma cabeça parecida com paus de fósforo, elas ficam acesas uns dez minutos até que a lenha mais seca prenda fogo de vez. Foi bem neste momento que percebi o movimento de alguém na ponta do balcão. Quando o gringo falou que não tinha e me ofereceu uns gravetos e eu já estava saindo, foi que ouvi a voz, clara, às minhas costas: " mas será que o homem dela não sabe acender um fogo?" Não me virei. As chaves do carro nas mãos, senti apenas um calor subir às faces. Jamais daria a estranho mal-educado algum o privilégio do meu rubor, que era do mesmo vermelho que lavrei raivosamente com o arado das pontas da chave. Do fim ao começo de todo o lado da caminhonete imponente do desconhecido, uma vingança de vinco fundo, a lata nua aparecendo do meio para o fim do risco. Nunca mais este peste vai ser grosso deste jeito. Ao menos comigo não.
Agora ele está aí, no portão. Até enquanto os labradores conseguirem impedir-lhe a entrada.
(Hoje, 30 de novembro, a galope do veloz sagitário, a Lua completa sua primeira órbita em Vênus. Neste passeio, descobri que os Guapuruvús são amarelos e quem deita dilúvios lilases nas calçadas deste Porto são os Ipês. Que Deus os preserve a todos, enfeitando esta cidade).

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

Quando a espera é uma parede em branco...

(foto: Guilherme Limas)

Pinto paredes
como quem nomeia cercas,
como quem lixa muros,
como quem desenha
sustos amarelos.

Pequeno gafanhoto,
aprendo a luta
primeiro nos ossos.
(desde o branco dos ossos
os músculos dobram
a fadiga das dores).

Quando o último degrau
é o palco da dança
as pontas dos pés
ensinam pincéis
às mãos sob o teto.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Sobre a 52a. Feira do Livro de Porto Alegre

(foto: Carlos C)

Transcrevo aqui e com autorização do autor, correspondência enviada pelo professor, parceiro de Quinteto e amigo. Prestigiem, se estiverem por este Porto tão Alegre nestes tempos de Guapuruvús, Ipês e Jacarandás. (pra não dizer que não falei das margaridas)

Cecília-Lia,

Desde a década de 70, sempre autografo na Feira do Livro no dia de meu aniversário, 05 de novembro. Neste ano, a sessão começará às 19:30h, na Praça de Autógrafos.

Se não estiveres em viagem, te espero na Feira. Em 2006, publiquei um livro novo, de contos, chamado Logo tu repousarás também, pela Editora Record. Além disso, durante esse ano, a Editora Record reeditou outros 3 romances que escrevi, Valsa para Bruno Stein, Quem faz gemer a terra e O escorpião da sexta-feira. Também estarei autografando Caminhando na Chuva, que foi relançado pela Editora Ática. E todos os meus outros livros, editados anteriormente pela Editora Mercado Aberto, Editora Artes & Ofícios, Editora WS.

Enfim, quero fazer uma sessão de autógrafo em homenagem à vida, que este foi o ano de meu renascimento, tanto físico quanto simbólico. Agosto me foi um mês aziago, mas agora os jacarandás estão floridos, encantando a Praça da Matriz.

Se puderes, apareça.

Abraço,

Charles Kiefer
Escritor e Professor
Veja mais em:
www.charleskiefer.com.br
www.charleskiefer.com.br/oficina
www.bestiario.com.br

Terça-feira, Outubro 31, 2006

História para compartilhar (e agradecer)

Era uma vez uma guria que cresceu depressa demais. Pernas longas demais. Finas demais. Aerodinâmica posterior inexistente. Cabelos anelados demais. Sardas demais. Saliências anteriores escamoteáveis por largas camisetas. Desengonçamento e vergonha.

Certa vez, carregando a cabeça sempre baixa pelas calçadas, ouviu de alguém uma quase-sentença: g o s t o s a ! Uns trezentos passos adiante, olhou em volta. Deveria haver alguém a quem se destinaria tal comentário. Não havia !!

Dias atrás, a tal guria recebeu um telefonema: - parabéns, estás entre as finalistas do Histórias do Trabalho. Como nas outras vezes em que ouvira coisa semelhante, o mesmo ímpeto de olhar para o telefone: era para ela mesma que estavam dizendo aquilo? Deveria haver engano, talvez estivessem confundindo as pessoas. Não estavam. Seu conto Ocos tinha sido selecionado para a antologia anual.

Gostoso, isso.

Ao Nelson Safi, autor de Balas de Coco, amigo e colega de oficina, que viu primeiro e teve a delicadeza de ligar.

(foto: Helder Gonçalves)
********
Ocos
(a quem pediu para ler)
Gosto do silêncio sério de João Rudá. Depois da lealdade em cuidar das minhas coisas, essa talvez seja a sua maior virtude. Se eu falo, ele ouve. Compreende? Quase sempre. Se eu calo, ele trabalha até o sol se por. Algumas vezes trabalhamos quietos por horas, turnos, dias inteiros. Impressionantemente, ele sabe. No começo, quando cheguei neste lugar, era só ele. Trouxe-lhe os pertences do irmão que morreu, sozinho, em uma enfermaria da capital. Ele recebeu. Deu as costas. Entrou na casa. Voltou. Escancarou a porta. Não precisava, eu já tinha visto, a casa era aquilo mesmo, aquela peça enfumaçada, a chaleira enegrecida soprando vapores sobre a chapa de aço. Agradeci. Voltei pela estrada de chão e precipício. Pensei na pobreza de pertences. Na pobreza de vozes. Na solidão. Voltei em duas semanas, uns trastes no carro: bacias, pratos de jogos descasados, copos, o casaco de um homem que já não o usaria mais. Voltaria ainda mais vezes. Numa destas, na curva da estrada que enxerga o outro lado da montanha, uma placa: Vende-se. Estacionei, bati palmas em frente ao portão, ô de casa, o galpão distante. Ninguém. Nem um cão. Uma vaca mugindo longe. Vencido o arame que prendia a porteira, o capim crescido num caminho antigo, a porta encostada. O telheiro. Alto, caberia um trator. Uma escada, um mezanino pequeno separando em duas metades. Frestas de telhas filtravam o sol. Sobre o tablado do alto, um buraco para o céu. João Rudá limpou. Ceifou o mato, consertou as telhas, pôs tábuas no assoalho, abriu janelas. Não tocou nas tesouras grossas de eucalipto que sustentavam as telhas. Fez um fogão de tijolos no centro de tudo, colocou chaminé de zinco com galo de ventos na saída. Não pintou. Ainda não. Comecei a ajudá-lo todos os finais de semana, exilada das demandas cotidianas. Um dia me trouxe Helga, a viúva. Não fosse por falar o que nós dois não falamos, é uma boa pessoa. Depois que foi morar com João Rudá, a tapera ganhou jardim, a privada virou banheiro. Traz as panelas de alumínio areadas e secas no sol. Helga é uma boa mulher. Fala demais, só isso. Mas faz pães de aipim magníficos. Mas planta temperos que me traz em exagero. Mas cuida do bom João, que cuida bem de meu jardim. Mas entende a mudez de nascença dele. Fala por ele também. Não sei se ele gosta. Como não ouve, acho que nem liga. Decidi ficar por aqui. Dizem, na cidade, que é a capital da longevidade. Não importa, gosto mesmo é do que fica para cá desta porteira. O olho que corre longe, pelo vale. O outro que alcança alto, no espaço onde uns homens pensam voar, às vezes, com grandes asas. Também já pensei, era jovem demais. Também um dia quis o mar, mas era bobagem. O mar era muito mais para o desassossego do que para a conquista, pura ilusão. Grande demais. Hoje, sou o oco da árvore que fica mais lá no fundo, perto da ribanceira. Dia destes, temporal veio e um raio despencou sobre ela. O oco continua lá, em silêncio. Depois, um passarinho fez ninho. Nesta parte ainda não cheguei. Sou só o oco queimado querendo ficar lá, no fundo, em silêncio. Passarinho? Tudo bem, também.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

desistir-e-pronto

"Ya estoy en la mitad de esta carretera
tantas encrucijadas quedan detrás...
Ya está en el aire girando mi moneda
y que sea lo que sea. "
SEA, Jorge Drexler
Porque era necessário acreditar que era-possível-desistir-e-pronto e porque esta era uma decisão que deveria ter lá a sua pompa, naquela noite não descalçou o salto nem a saia, nem lavou do corpo os perfumes do dia. Limitou-se a abrir seu melhor vinho e andar pela casa até que o primeiro violeta da manhã trouxesse as respostas de que necessitava: colocar a casa e a alma à venda. Porque era necessário acreditar que era-possível-desistir-e-pronto, nos dias seguintes viu adentrarem seus silêncios e discutirem reformas em suas e(x)ternidades e lançarem propostas à compra do que valia mais do que territórios delimitados por muros. Mas porque era tão difícil, mas tão difícil desistir-e-pronto, ainda não tinha conseguido saber em quantas vezes deveria parcelar a alma.

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Dia do Médico

- Vai doer?, ela interrompe a explicação sobre o procedimento que precisávamos fazer para tratar suas muitas verrugas nas mãos.

Olhando nos olhos: - Vai. Um pouco, tento suavizar.

- Mas vai doer quanto, como se arrancassem minha mão?

Pensei por um instante nos trilhares de cristais de gelo pontiagudos do nitrogênio, espetando os pequenos dedos. - Como se tivessem cem formiguinhas...

Os olhos azuis e límpidos me olharam em silêncio. Decidi prosseguir: - Maaassss ! Se colocarmos este remédio mágico ! Maaassss ! Se a mãe te levar para tomar um suco ! Maaasss ! Se a gente contar meia hora no relógio, quando voltarem aqui serão só cinqüenta.

- Cinqüenta?

- É, das menos ferozes. Coloquei o anestésico e observei a graça da menina em sua jardineira de cintura franzida afastando-se com a mãe.

Meia hora e uns minutos depois, o procedimento concluído, os olhos vermelhos, as faces afogueadas, o nariz fungando as lágrimas que ela tentava orgulhosamente esconder:

- Doutora - levantei os olhos do papel onde escrevia as orientações - quando a gente faz o que precisa, né que as formigas criam asas e voam, que nem borboletas?

(para a Srta. R, que nos seus sete anos me lembrou, hoje, que é branca a minha melhor roupa)

foto: Ana Maria Rosso

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Segredos

Das coisas terríveis do fim, o mais entristecedor nem era o fato de jamais visitarem juntos aquela cidade que tinha O Porto, onde ela lhe surpreenderia com as meias grossas e coloridas sob a saia curta. Era tampouco a certeza de nunca mais ouvir a risada larga, beijar beijo de escada rolante, sentir na moldura da boca dele o cheiro do cheiro dela. O que mais a entristecia era que ele jamais conheceria os dois segredos que ela guardara cuidadosa para a velhice, as mãos dadas, cadeiras na varanda.
(foto: Hugo Amador)

Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Desistências

(Foto: George Hamilton)
Sou uma louca mansa.
Não ofereço
perigos
alarmas
necessidades de vigílias.
Tampouco é necessário
procurar-me
nas profundezas
nem nas encostas
onde pedras
e mariscos
peleiam.
No mar da beira
minha rendição
não merece
uma braçada.

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Inteligências


A generosidade, hoje sei, é uma forma superior de inteligência.

Naquela primeiro encontro, a velha índia tentava vender-me um de seus tantos colares.

Respondi que não, obrigada, um sorriso formal e sem sentidos.

Retirou de entre todos um, o que mais se representava nas cores da camisa que eu vestia e colocou-o em meu pescoço.

Delicada e firme, agradeci outra vez. Foi então que percebi, na sua dificuldade em expressar-se, uma provável deficiência mental.

Mostrou o valor no indicador erguido: um real.

Envergonhada, entreguei-lhe mais. Também à pequena, a saia de cipós, uns três anos, que a acompanhava, umas moedas.

Beijou-me a face e foi. Deixou-se fotografar ao meu lado, a boca desabitada, sorrindo.

Uns dias mais tarde, na praia, o último encontro com a Pataxó.

Vendo-a aproximar-se à distância imaginei à contra-gosto o que ela iria arranjar para combinar com a camisa azul que eu vestia sobre o biquíni.

Num instante, o espinho oculto na areia, a ferida no pé. A dor.

Para minha surpresa, chegou bem perto. Disse algo que não entendi.

Tirou das bugigangas que trazia, uma pena de cor forte.

Prendeu-a no meu chapéu, beijou-me novamente, e seguiu.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Justificativas

(foto: Hugo Amadeo)

Há que voltar-se
aos dias.

(Outros mergulhos

justificarão

a profundeza dos dentros).

Não há dor que
linimento azul
de horizonte
e oceano
não atenue.

Quando o desejo

morre

na boca

peles e ossos

conversam.

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Porque é feito de libertações, o amor

(foto: Jorge Adn Costa)

A gente prepara o ninho. Aplica em panos verde-água, acetinados pombos da paz. A gente escolhe o nome, enjoa, tem desejos insólitos na madrugada, faz manha. A gente arruma a mala, roupa de gente bem pequena e de quem ficou bem grande. A gente espera, e nem sabe pelo quanto. Numa noite, chega a hora.

Quando ele estréia, já é manhã. Chora. A gente, mais. Ele passarinho, espera com o bico aberto o leite escasso do peito doído de despreparo e medo. A gente não adora, mas talvez devesse. A gente chora. Depois, cora por ter chorado. Daí, a gente se olha. E entende tudo, o sentido completo.

A gente joga taco, anda de bicicleta-roller-pedalinho, mas nunca consegue se equilibrar decentemente num skate. A gente briga pelo tema de casa, pelo palavrão, pelo dente mal escovado. A gente canta intermináveis viagens de carro. A gente conta histórias. Depois, lê um livro e adormece antes, sobre todos os brinquedos, no chão da sala. A gente faz planos, aniversários na calçada, as caras sujas de brigadeiro e suor. E haja pai para tanto futebol e outras brincadeiras de menino. A gente pactua beijos de batom nas mãos adormecidas significando te amo. A gente volta à noite e ele ainda não lavou a mão.

Um dia, ele chega com uma menina e nem se precisa fazer nenhum esforço: sim, ela é bonita, filho. Daí, torce para que as dores do amor lhe sejam brandas. A gente é chamado na escola. Discute pobrezas e verdades. Tenta ensinar gratidão. A gente entrega confiança, mas dá uma espiada nos bolsos. A gente conversa. Combina de fumar junto, quando for a primeira vez. Depois esquece. Muito mais tarde, a gente fica sabendo, entre risadas, como foi. A gente espalha camisinhas pela casa. Casualmente, encontra uma na carteira. Usa sempre, filho? Claro! Aham. A gente recebe conselhos. Recebe cumplicidade. Recebe parceria. Quando precisa mais, recebe uma aula inteira de ética aplicada. A gente agradece. A gente briga. Bate boca. Bate a porta. Volta. Desculpa-se. A gente cresce junto.

Chega uma noite, ele diz quero ir. Mas é sonho. Quando acorda, de manhã, trocou de idéia. Mais tarde, retoma. Andou tendo umas experiências, conversou com amigos, sabe, mãe, a gente precisa cuidar da própria vida. Ah, sim...

Num belo dia, o primeiro passarinho estica uma das asas. Trêmula, a princípio, depois valente. A outra. Roça o bico nas penas da gente, então voa. (sobre este escrevi em dezembro do ano passado). Tempos depois, é a vez do outro. Quando parte, deixa atrás de si o eco nas paredes vazias e a toalha molhada sobre a cama. Um dia, aprende. Coisa boa da vida, essa possibilidade.

- Vai, filho. Voa! Só quem é muito amado pode partir.

(Para o Vinicius, com o desejo de robustas asas).

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Bem-me-quer

(foto: David Guimarães)

Eu queria desamassar
as franjas das Dálias
tentar esmaecer mais lento
o colorido brusco
dos amores-perfeitos
desfazer da petalância
insutil das orquídeas

Mas veio a segunda-feira
e as suas demandas...

Eu queria cunhar cavacos
entre as pedras da fonte
criar pontes de folhas
gigantes
para as lesmas, sobre o lago
transfundir de azul
um céu insistentemente
cinza

mas veio a seguda-feira
e as suas demandas...

Eu queria ensinar girassóis
(tão lentos e pouco confiáveis
girassóis, em dias sem sol)
e desenhar margaridas
de ímpares números brancos

Daí, não fosse segunda-feira,
eu as despetalaria
só para brincar - todos os dias -
resultando bem-me-quer.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

O último encontro

Fazia sol, naquela manhã, como fizera claridades meridionais em todas as manhãs daquele outono. Ela, atrasada. Sempre atrasada. Enquanto ainda ecoavam as decisões da prolongada reunião de trabalho, dirigia rápido pelas ruas ladeirentas da zona alta da cidade. Perguntava-se o que teria feito a tia, passada dos seus setenta, viajar mais de quinhentos quilômetros para falar-lhe. Ligou na noite anterior e convidou-a ao almoço. Não, melhor seria dizer, convocou-a. Com a autoridade que emana de determinados velhos muito respeitados, ela dissera: " cheguei à tarde. Te espero para o almoço de amanhã". Prática, como fizera desde sempre. Assustada e feliz, ela murmurou um encantado-assustado-feliz "tá, tia". E desligaram.

Desde a morte da avó, a tia assumira o matriarcado da família. Como irmã mais velha de muitos, tratava de coordenar as finanças dos filhos, a universidade dos netos, a reforma dos prédios de apartamentos com que pensava garantir o futuro de todos. Pó de cimento, comentava-se, era seu melhor estimulante. Uma sobrinha casava e lá estava ela organizando a festança, resolvendo o buffet, colocando algum dinheiro na carteira do noivo, para que ele pudesse dar lua-de-mel distinta à noiva. Outras vezes era o nascimento de um sobrinho-neto, ou de um dos tantos afilhados que a levava a viajar pelo interior ensinar maternagem, costurar, resolver, auxiliar. Tudo muito prático, sempre isenta de julgamentos sobre os modos alheios de viver. Ao próprio marido, enquanto vivo, fazia vontades: a toalha da mesa imaculadamente branca e engomada em cada refeição, o jornal do dia intacto para que ele fosse sempre o primeiro, as músicas clássicas e o tom baixo nas conversas, sempre tão formais. Somente com ele. Como ele gostava.

Pensava em tudo isso para não lembrar do real motivo que fizera a tia cruzar o estado na manhã anterior. Certamente, chegara-lhe aos ouvidos a notícia da separação iminente do casal que ela ajudara a casar, maternar, aconselhar. Embora soubesse de seus cuidados em não intrometer-se, era quase certo que ela, - como tantos da família - tentaria questioná-la, dissuadí-la, perguntar-lhe das razões, um moço tão bom, bom pai, que loucura é essa, minha filha, depois de tantos anos. Com certeza, era disso que se faria o almoço. Ainda assim, iria. Cumpriria todos os ritos do início ao fim. Bater nela, a tia não iria. De resto, naquela confusão em que a vida se transformara, era mais um pórtico a transpor. Daria as explicações necessárias. À tia, não precisaria mentiras. Contaria, se ela perguntasse, as razões. Mulher forte e além do seu tempo, entenderia.

O prédio antigo de grades torneadas em zinabre e dourado, longo o corredor gélido, os ladrilhos geométricos do piso, a agudeza da campainha.

- Oi, tia. Tudo bem? Saudades. (Odiava aquele incontível sorriso ainda infantil e tímido que trazia-lhe covas às bochechas)
- Oi, mintsia. (Sentiu-se empalidecer. Só a avó, a adorada e temida dama germânica, a chamava daquele jeito que ela sequer sabia escrever, mas que devia significar gatinha, em alemão). Como estás?
- Tudo bem, tia. (silêncio longo) A senhora já sabe?

Resmungando algo como espera um pouco, a velha senhora sumiu através da porta que levava aos quartos.

- Toma, fiz para ti. Dentro do pacote mal enrolado, uns panos-de-prato cujo crochê indefectível era uma de suas marcas registradas. - Quando se começa vida nova, precisa-se de enxoval novo.

(em memória de minha Tia Vânia, a última grande matriarca, que ontem começou uma vida nova em um lugar onde talvez só precise dos panos tecidos pelo amor e respeito, que ela ensinou tão bem)

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Voltas


(Foto: Marco Ricca)

Porque os mares
circundam tudo

bastam

e sete deles não
afastam

senão confluem

Porque a noite vira

dia

e o mundo
é redondo

e o amor
é redondo

e porque não desistes
de voltar

e voltas
e voltas

e voltas serão

n e c e s s á r i a s

antes que as profecias
se cumpram

mas o reencontro

é certo

porque é de círculos
feito o crescimento
e não de pontas

e é de sempres
a eternidade
jamais de nuncas

mais

quero a rosa

branca

entre rosas

a que vem depois
da décima

terceira rosa

a rosa
a roda

a roda-do-tempo
para sempre

para sempre tua.

Amém.

Terça-feira, Julho 04, 2006

Nomes


Conversaram durante
um cálice
de espumante
e duas
confissões.

Na despedida
ele tomou-lhe
as mãos:
"Tempo,
minha querida,
é o outro nome
de Deus."

Quarta-feira, Junho 28, 2006

Ocos

Gosto do silêncio sério de João Rudá. Depois da lealdade em cuidar das minhas coisas, essa talvez seja a sua maior virtude. Se eu falo, ele ouve. Compreende? Quase sempre. Se eu calo, ele trabalha até o sol se por. Algumas vezes trabalhamos quietos por horas, turnos, dias inteiros. Impressionantemente, ele sabe. No começo, quando cheguei neste lugar, era só ele. Trouxe-lhe os pertences do irmão que morreu, sozinho, em uma enfermaria da capital. Ele recebeu. Deu as costas. Entrou na casa. Voltou. Escancarou a porta. Não precisava, eu já tinha visto, a casa era aquilo mesmo, aquela peça enfumaçada, a chaleira enegrecida soprando vapores sobre a chapa de aço. Agradeci. Voltei pela estrada de chão e precipício. Pensei na pobreza de pertences. Na pobreza de vozes. Na solidão. Voltei em duas semanas, uns trastes no carro: bacias, pratos de jogos descasados, copos, o casaco de um homem que já não o usaria mais. Voltaria ainda mais vezes.

Numa destas, na curva da estrada que enxerga o outro lado da montanha, uma placa: Vende-se. Estacionei, bati palmas em frente ao portão, ô de casa, o galpão distante. Ninguém. Nem um cão. Uma vaca mugindo longe. Vencido o arame que prendia a porteira, o capim crescido num caminho antigo, a porta encostada. O telheiro. Alto, caberia um trator. Uma escada, um mezanino pequeno separando em duas metades. Frestas de telhas filtravam o sol. Sobre o tablado do alto, um buraco para o céu.

João Rudá limpou. Ceifou o mato, consertou as telhas, pôs tábuas no assoalho, abriu janelas. Não tocou nas tesouras grossas de eucalipto que sustentavam as telhas. Fez um fogão de tijolos no centro de tudo, colocou chaminé de zinco com galo de ventos na saída. Não pintou. Ainda não. Comecei a ajudá-lo todos os finais de semana, exilada das demandas cotidianas. Um dia me trouxe Helga, a viúva. Não fosse por falar o que nós dois não falamos, é uma boa pessoa. Depois que foi morar com João Rudá, a tapera ganhou jardim, a privada virou banheiro. Traz as panelas de alumínio areadas e secas no sol. Helga é uma boa mulher. Fala demais, só isso. Mas faz pães de aipim magníficos. Mas planta temperos que me traz em exagero. Mas cuida do bom João, que cuida bem de meu jardim. Mas entende a mudez de nascença dele. Fala por ele também. Não sei se ele gosta. Como não ouve, acho que nem liga.

Decidi ficar por aqui. Dizem, na cidade, que é a capital da longevidade. Não importa, gosto mesmo é do que fica para cá desta porteira. O olho que corre longe, pelo vale. O outro que alcança alto, no espaço onde uns homens pensam voar, às vezes, com grandes asas. Também já pensei, era jovem demais. Também um dia quis o mar, mas era bobagem. O mar era muito mais para o desassossego do que para a conquista, pura ilusão. Grande demais. Hoje, sou o oco da árvore que fica mais lá no fundo, perto da ribanceira. Dia destes, temporal veio e um raio despencou sobre ela. O oco continua lá, em silêncio. Depois, um passarinho fez ninho. Nesta parte ainda não cheguei. Sou só o oco queimado querendo ficar lá, no fundo, em silêncio. Passarinho? Tudo bem, também.

Quarta-feira, Junho 21, 2006

Quase Tudo

A lâmpada fraca joga um feixe amarelo exato sobre a mesa do canto. Suficiente. Um avarandado pequeno protege a entrada da sala da casa antiga, com suas cristaleiras de livros. A janela baixa faz as vezes de vitrine. Uns duzentos volumes? Talvez. Constraste com a pompa das vitrines internacionais. Melhor assim, cada coisa ocupando a exata importância que se lhe é dada. Dentro da casa de paredes removidas, uniram sala e quarto e deixaram somente um pedaço de parede. Justo esta, onde minha cadeira se encosta. No antigo quarto, um balcão, bancos altos, poucas mesas, o bar. No armário que deve ter abrigado roupas, agora copos e bebidas, uma passagem quase escondida em outra porta igual, para a cozinha. Sempre gostei da mesa do canto, onde o mundo se descortina.

Do balcão, um homem olha. Além do homem, uma televisão e suas imagens provisórias como as verdades. Um barco sendo invadido por um grupo de piratas-músicos. Os vídeo-clipes são sempre mais elaborados que a vida. Ambos velozes, ambos sucedendo-se em flashes.

Não sou náu à deriva após ataque de corsários. Pacificada como todos os que já foram tocados um dia pelo Imensurável, mergulho os olhos no livro e leio de uma só vez os três primeiros capítulos. Danusa é Quase Tudo o que representa inteireza e liberdade. Respeitando as grandes diferenças em beleza e glamour - ela foi linda como eu não lembrava - gosto de pensar que todos sejamos um pouco essa mistura de ânsias e glórias, sofrimentos sem libertação, possibilidades duramente arrancadas à vida. Vitórias.

Ler o que nos move e modifica é como degustar um bom vinho: em um determinado momento a gente se mistura ao conhecimento: compreende. O homem sentado no balcão agora está de frente para a mesa onde leio. Já não posso enxergar a TV sem olhar diretamente em sua direção. De volta ao livro. O que ele estará imaginando, com esta insistência? Seria eu uma mulher cujo parceiro não apareceu? Ou que teria preferências sexuais inconfessáveis? Uma mulher disponível, à procura? Uma mulher, apenas? Deixo-o em paz, com sua curiosidade. Também ele é um homem e mais as circunstâncias, exclusivamente de sua conta e risco.

No livro, um personagem entrega à mulher eleita os cigarros sempre acesos. Guardo a imagem, fecho o livro. Com um sorriso leve, atravesso sozinha a chuva intensa na noite da Rua das Pedras.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

Noites

A noite chega sem ser percebida, em Búzios. Num instante era claro e - olha! - na praça acendem-se incandescências amarelas dos bicos de lâmpadas sobre as mesas dos artesões.
Tenho algum atraso em perceber, como tive quando o ônibus esvaziou-se, e permaneci nele. Fim da linha. Também não tenho a prontidão das respostas que precisam ser dadas. Pequena demais. Clara demais. Perdida demais. Frágil além do que se poderia perdoar. Explicar como, estas necessidades de exílios? Pode a noite prover o dia de seus saberes? Tampouco adiantaria explicá-los. O que sabe a luz, dos segredos silenciosos da treva?

Quarta-feira, Junho 14, 2006

Dos silêncios, só um pouco

À guisa de desculpas
A italiana que mora aqui
anda falando pelos cantos:
"Nunca mais,
uma maldita linha"
E eu não sei se
exclama, essa italiana
se cutuca, provoca,
ironiza ou interroga.
Até que uma das outras
que, como ela,
me habitam,
arranje coragem
para contestá-la,
entrego-lhes a Palavra,
que silencia.
Ou então
realiza-se,
a sua profecia.

Escultura da Marilia Fayh (www.mariliafayh.com.br). Um dia, será minha.

Falta*

Não sou predizível

linear

cotidiana

comezinha.

Sou o que ainda

faz falta.

A dor

que não cessa.

O riso

na hora inexata.

A lembrança tardia

descoberta

na gaveta errada.

* reproduzo aqui o que alguns já conhecem: nem tudo são silêncios de espinho sangrante. Este poema ganhou o primeiro lugar no 3º CONCURSO NACIONAL FERNANDO ALBINO DA ROSA ASES-RS (Associação Santa-rosense de Escritores). Comemoro com vocês, de olhos e coração atentos.

Terça-feira, Maio 09, 2006

Lentitudes

Outono. Minhas certezas têm o peso das folhas, quando desgarram dos plátanos. A vida pinta-se deste amarelo lento turvado de ferrugens improvisadas. Há uma pasmaceira pesada e silente, amnésia e torpor.
Ontem à tarde ele me procurou. Dirigiu lentamente pela via à beira d'água, vagou pelos cafés. Refez mil vezes a velha pergunta e esperou pela milésima primeira para desistir da resposta.
Não tenho palavras para o inverno, quando mostra as suas primeiras geadas. Com a inconstância dos amantes, o verbo teima em sair sem deixar bilhetes. Sinto frio. Desamparo, no leito das linhas abandonado.
Também ele despede-se dos amarelos e prepara o próximo tempo: friagem e solidão anunciadas. Saturno é plúmbeo como o inverno e ele o sabe.
Quanto a mim, por mais que tentasse, jamais consegui as rimas para os seus cinzas.

Segunda-feira, Abril 24, 2006

Motivos

Porque há tempos ele já se entregara a ela com esta disponibilidade sem condições, categorias, ou mesmo com este jeito inclassificável de quem entende que desprecisar de explicações seria a melhor maneira de amá-la;
Porque, por ela, ele já havia derrubado seus ídolos, pisoteado seus medos, cutucado com o indicador as feras que se escondem nas noites longas e escuras, mastigado os ciúmes;
Porque confiava nela sem fronteiras, na vastidão de tudo o que significa pensar saber o outro, antes mesmo dele próprio;
Porque, irresignado em ser o que dá linhas à pipa, reaprendeu os vôos sem amarras e, nas quedas vertiginosas, a ser o que fica, e ficando, o que já viu mais longe;
Por todas essas coisas e mais, por pensar ser o único que poderia acompanhá-la em suas gravitações ao redor das vidas, é que ele acreditava, jurava, esperava, torcia. Ela um dia, e finalmente, iria dizer-lhe Sim.

Quarta-feira, Abril 12, 2006

Voar, sempre Voar

Foto: CeciLia Cassal

Não entendo de dinheiro. Nada sei sobre mercado de capitais, finanças, investimentos, falências, insolvências, inadimplências e outros quetais. Não é nada radical, do tipo não-sei-não-quero-saber-e-tenho-raiva-de-quem-sabe. Simplesmente não faço muito esforço para movimentar-me entre cifras. (Tenho o que preciso e assim está bem). Há quem faça isso com muito mais propriedade.

Dito isso, considero-me eximida da necessidade de qualquer análise sócio-econômica sobre o que vou falar. Sustento-me pela memória, que na minha idade já é o que de melhor há de se possuir. Nascida em um quarto de paredes verde-bandeira brilhante da grande casa de paredes de tábua dupla, a primeira coisa que ouvi foi o ruido metálico de algum instrumento sendo jogado pela parteira Dona Maria na bacia de cobre aos pés da cama onde minha mãe, ajudada pela irmã, ainda se livrava de outros restos das nove luas gestadas. A segunda coisa que ouvi foi o pi-pi-pi do rádio-telégrafo que meu pai operava na sala ao lado. Mais tarde, seria alfabetizada primeiro em código Morse.

De coisas significantes ao que vou contar, o primeiro presente, uma boneca de curtos cabelos louros, com boina azul-marinho e traje de aeromoça (na época não se dizia comissária) com estrelas prateadas de quatro pontas nas lapelas. Mais tarde, a notícia da morte em seus primeiros significados, através de um avião cujos destroços fariam parte durante anos da decoração do quintal da grande casa. Nas loucas ventanias de primavera, as antenas de rádio entortando-se sobre os telhados, a igreja com um São José e o Menino no colo sobre a torre sendo destelhada...

O pai falando da leitura dos barômetros e o significado dos cirros no céu, ensinando sobre as direções dos ventos enquanto a mãe pedalava uma imponente Singer negra, à custa de costurar rotas birutas. O sol no capim do campo deitando no vento e o brilho metálico das asas dos pequenos aviões, o cheiro do querosene colando nas narinas, as luzes laterais da pista de pouso, o ronco das hélices giradas pelas mãos fortes dos homens para movimentar os motores das naves que nos levavam por sobre as lagoas, na primeira visita à capital. As capivaras na lonjura da cabeceira da pista, lá onde não podíamos aventurar-nos sozinhas, minha irmã e eu, os quadros que atestavam uma vida funcional honrada aos dez, quinze, vinte anos de trabalho enfeitando as paredes da sala de receber tripulantes.

Um dia, o campo de pouso limitado pelas pequenas casas da vila nos entornos, a empresa encerrou as atividades no Rio dos Ameandros. Naquele ano e nos seguintes, muitas vezes ouvíamos, noite alta, o ronco dos motores dos aviões que - não encontrando visibilidade para pousar na capital - precisavam pernoitar ali até clarear o dia ou findarem as tempestades. Nestas noites, saíamos pela pequena cidade convocando os poucos automóveis que existiam para iluminar a cabeceira da pista e possibilitar a aterrisagem. Depois, era mãe desfazendo-se em gentilezas, preparando camas de campanha, sopas, distrações.

Mudam os tempos, loteia-se o campo de pouso e aquinhoa-se a infância. Guardam-se seus pedações em escritos, fotografias, pedaços de asas, brevês, decolagens e voltas tantas. Hoje nós, que por muito tempo fizemos parte da grande família da Varig, esperamos decisões judiciais que arbitrem sobre o passado e o futuro. Será que algum juíz neste mundo sabe o que significa ter nascido num campo de pouso? Crescido num aeroporto? Empinado pandorgas pela mão do pai em um campo de aviação? Será algum dinheiro neste mundo capaz de devolver aos olhos dos velhos telegrafistas, pilotos, comissários, técnicos, mecânicos, guarda-campos, o orgulho e a dignidade do trabalho de fazer voar?

Quarta-feira, Abril 05, 2006

cincodeabril


Foto: CeciLia Cassal


Há o tempo que consome, perverte, traz o esquecimento, ignora. Prefiro o que aprimora. Um tempo que esmaece o fato, atenua a emoção, aplaina os quereres. Prefiro o que os reinventa, motes para uma vida inteira.

Nas décimas-quartas semanas, todos os anos, certezas forjadas a ferro e fogo esculpem uma nova pele no rosto de uma bailarina. Quando chega este tempo benfazejo, escorre nela uma luz quase azul de tão branca. Como todas as coisas feitas para durar, não há ferrugem, zinabre, oxidação que a deteriore. Como a memória dos tempos que aprimoram os quereres e reinventam a emoção.

Quarta-feira, Março 29, 2006

Saúde Mental em Gauchês

Depois do Analista de Bagé, do Veríssimo,
vocês conhecem o Lacaniano de Passo Fundo, seu muito discípulo?
Não??? Então vos apresento.

Segunda-feira, Março 27, 2006

Porto Alegre

Foto: Adriana Franciosi

Porque esta cidade

é sempre uma festa

eu sigo fotografando

seus verdes silêncios

e os dias já parecem

em pleno azul.

Os caules descamam

indiferentes ao estio.

As folhas amarelam

e não sabem

das estações.

Eu sei.

Daqui a pouco

será novamente

abril.

Terça-feira, Março 21, 2006

Redenções

, (Foto: Baía dos Porcos - CeciLia Cassal)

Daquela vez entardecia, quando te me dei meu último grito. Ensaiamos tantas vezes a última, e eu ainda tentava. Braço erguido na vastidão do mar eu, que só sei do mar, não braceava. Todo o corpo afundado, a mão que era só resto pedia um socorro cheio de desistências, um socorro ilógico de quem se deixa vencer e o pedido é para não morrer desacreditado. Era final da tarde e sempre me amavas, nas redes das tardes. E sempre me recebias, as pálpebras ainda cerradas, na primeira imagem das manhãs. E sempre me aconselhavas o almoço e sempre me pedias cuidado nas ruas. Não desta vez: o dia se terminava e nós nos afogávamos em pedras que não erguiam sequer uma montanha, quanto menos ocultavam o que fôramos. Mas não me estendias a corda. Não sei se, eu mesma, a queria. Não sei se ainda sabia a quem estava a pedir a salvação. Sequer sabia se existia, no final de tudo, esta redenção que traz de volta os passados mais bonitos. Porque eles, os passados, já não existem e nós jamais seremos o que escolhemos para nós. Aprendi a aceitar que, sendo a vida, a vida possível, então, não preciso salvamentos. Tampouco redenções. Prefiro o mar.

Segunda-feira, Março 20, 2006

Instantâneo

(Na foto, uma homenagem do Apolo ao dono Wagner,
pelo seu décimo nono aniversário. Parabéns, filho adorado!)
A semana
inicia
eivada de
magia
pequena.

Espalhadas
pelo
chão
folhas derramadas
de chimarrão
e alguma
poesia.

Pela janela
esquecida
a ventania
da noite
tratou de
decorar
a cena.

Sexta-feira, Março 17, 2006

Primeira vez


A boca
erra
esfrega
acerta
erra
acerta
esfrega
suga

A mão
carinha
não
aperta

Mariana aprende
a mamar.

Terça-feira, Março 14, 2006

Laguz

Foto: Céu Guitart
Espero. Um tempo sem tempo sem hora só mistério de quando vai chegar. Espero e na espera a saudade é mero detalhe os portões esgarçados as vestes puídas a pele espessada. Espero em Laguz, o feliz no final, como todo o desfecho que se preze. E ser assim é ser é calmaria depois e dentro e antes da tormenta. É desimportar da tempestade. É oferenda de quem já entregou da vida um tudo e hoje é: Espera. Porque a vontade é um cais vazio, enquanto a nau não aporta. Provisório, como a paixão o tempo a felicidade a verdade. Porque a vida sem chances é uma vida morta. E somos muito vivos. Espero. Porque de nada adiantam as fugas as ladainhas as hipocrisias as perversões que jamais se demoraram eternamente. Que jamais te deram um ínfimo do que sei que queres. Espero porque toda mentira é vil, e sendo assim, a luz chega e fica. Um dia. Quando não mais será preciso: A espera.

Terça-feira, Março 07, 2006

Deus

Foto: Vitor Nunes

O jardim da toalha
da mesa ganhou
insólitos miolos
de pedra.

A manhã escolheu
a dedo
os feijões
da panela.

A água do mate
chiando
é Deus
pedindo
silêncio.

Sexta-feira, Março 03, 2006

Três Atos para o Grande Amor III

Foto: Chicago - Wagner Cassal Corrêa
Terceiro Ato

O Grande Amor é uma esfinge que prefere ser devorada mil vezes, ao invés de entregar a sua senha. Antes, esgota a Palavra pela metade. Mil vezes Amor. E de nada adianta suborná-la com presentes vistosos, tampouco corromper-lhe as virtudes com encantadoras canções. Não importa quando seja, chega sempre cedo demais, o Amor, e esta precocidade não é definida por qualquer idade. É algo como graduar-se no primeiro ano de um curso e precisar cumprir todo o resto do tempo mesmo assim. Todo o depois, então, perde o significado, ante a experiência irreproduzível. A espera é tempo cheio de incertezas, apreensões, possibilidades. Depois dele, é tempo de dar-se graças, por todo o tempo que o Tempo restar. Talvez por isso é que os amantes - em situações muito especiais - pensam que, naquele momento exato, morrer parecer-lhes-ia adequado. É como quisessem congelar ali, no ápice das importâncias todas, a experiência fundamental. Nenhuma espera a mais, tudo (des) concretizado na certeza de ter obtido o conhecimento maior. Nenhuma lembrança deveria sobrevir ao Amor estabelecido. Nada que pudesse bulir com o encantamento de haver chegado, conhecido, desfrutado, ser atravessado pelo Caudaloso. Mas, voltando à esfinge, o Amor é muito mais do que um mistério ou um lugar. É antes um colo, um abraço, um olhar, mil vezes mais do que um solo, onde ocorreu de dois renascerem. O Grande Amor é uma música que se conseguirá jamais aprender. Ensina que a vida é arte que, sempre que compreende-se uma parte, o Grande Amor surpreende e, da outra, já fez esquecer. O Grande Amor é um vaso ornado por raro afresco. Quebrado, jamais será o mesmo. Reordenados os cacos se descobrirá um mosaico de inestimado valor. No ancoradouro do Grande Amor tem braços de Porto e uma lua que ilumina - se inteira - os caminhos de não se perder.

Sábado, Fevereiro 25, 2006

Três Atos para o Grande Amor II

Foto: Marilia Gomes

Segundo Ato

A chegada do Amor desmesura-se em significativos silêncios e abraços eloqüentes. É feita de pergunta e compreensão tácita sobre pequenos poderes. Beijar, tocar, descobrir familiaridades insuspeitas, rir comer calar chorar sentir pensar junto. O Grande Amor traz nas faces dois rubores e um carro de rolimãs no passado. Tem maçãs sem pecados, nas faces do Amor. O Grande Amor tem, nas flores da manhã, as cores de Mikonos ao acordar. Tocados pelos olhos do Amor, ungidos pelos seus óleos, tornamo-nos profanos deuses. A delícia dos pedestais onde somos vistos por muitos, mas tocados verdadeira e unicamente pelo ser amado, pertence ao Grande Amor, ele próprio objeto de uma adoração festejada. É, para todo o sempre e raros escolhidos, festa e enlevo, a chegada do Amor.

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Três Atos para o Grande Amor

Primeiro Ato

A espera do Amor pinta uma cena perfeita e deixa um vulto delineado, para quando o Amor chegar. Depois, desnuda-se em imagens borradas, para que o ser amado exercite bem mais do que o olhar. O Amor ensaia um riso, quando precisa o Amor alegrar. Mente para não trair. Silencia para não delatar. O Amor lê o que não entende, só pra poder perguntar. O Amor caminha mais rápido pelas ruas desertas da cidade no verão, quando então se reinventa e quase flutua. Na noite, não encosta as pestanas, o Amor, e na aurora fecha as cortinas, para que sobressaia da penumbra apenas a luz de amar. O Amor não come, pra melhor observar. O Amor, quando se ausenta, volta e volta e volta, como um velho gato ao amanhecer, simplesmente por não haver nenhum outro lugar aonde quisesse tanto estar.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Demasiado real

Excluí o post de ontem.
Não gostei dele. Demasiado real.
Não combina com as órbitas de Vênus.
Deixo apenas o que deveria ter sido,
desde quando surgiu. O aviso.

Tenham cuidado com as intoxicações domésticas.

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006

Marionetes


No mundo todo
as verdades são
quase todas
velhas.

Também eu
milenar(mente)
reescreví todas
as minhas teses.

Mas meus olhos
marionetes
arrastados por teus
passos
hoje são só
antítese.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Deserto, decerto!


Porque somos mundo e asa e ovo e vida
porque somos cosmo e margarida
porque somos briga e volta
e anseio por mais lida

por assim sermos temos a conquista
do pacto da surpresa da acolhida

Se hoje me fizesse deserto

serias pirâmide
Se decerto teu rio secasse
eu inundação cortante de sulcos
sobre os veios da tua terra esturricada

Seria chuva de faraós
ou seria caminho
Mais nada

Terça-feira, Janeiro 31, 2006


Palavraria – Livraria-Café &
Oficinas de Literatura Charles Kiefer


CONVIDAM PARA

Sarau de poesia
com o grupo Quinteto


31 de janeiro, terça-feira, 20h
Na Palavraria – Livraria-Café


O grupo Quinteto, formado pelos escritores Ana Mariano, CeciLia Cassal, Charles Kiefer, Luciane Slomka e Paulo Renato Rodrigues, apresenta leitura de poemas de autoria dos componentes do grupo.

Palavraria - Livraria-Café
Rua Vasco da Gama, 165
Bom Fim
90420-111
Porto Alegre
Telefone 051 32684260

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Máscaras

Tirar a roupa é mais fácil
do que mostrar os olhos.
A vergonha está mais perto do beijo
do que a indiferença.
Vestir máscaras explicita
os medos.
Na distância, o silêncio
não traduz palavra
virtude.

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Adjetivos


São tantos os adjetivos de que se serve o amor.

Naquela tarde quente de final de janeiro, reconstruíamos um telheiro de guardar ferramentas, após um dos tantos vendavais do final da primavera daquela cidade costeira. Ele removia as tábuas boas e batia-lhes os pregos ao contrário, para que eu pudesse arrancá-los com segurança. Mais tarde, desentortaríamos os menos enferrujados sobre a mesa do torno, para reaproveitá-los nas próximas tesouras do telhado.

Quebradas inúmeras telhas, o pai pediu ao dono do caminhão, que trouxesse uma carga. Telhas francesas. Novinhas. O barro cheirava a vermelho e me lembrava de algo que eu não sabia bem, ainda. Mas foi lá que descobri que as cores, elas também, tinham cheiros, que mudavam de acordo com a nuance. Mais tarde, conheceria os lápis-de-cor no escuro. Mas esta é outra história. Depois das telhas, o olhar do pai perdido. O olhar triste e perdido do pai, olhando o caminhão se afastar.

Ele era um homem bem musical, eu penso. Ainda criança, não me cantava cantigas de ninar senão que tocava, à frente dos meus choros, uma impressionante gaita-de-boca niquelada. Sons que acordavam a alegria em mim. Outras vezes, o pai parecia feliz e cantarolava cantigas antigas.

Naquela hora, resolví despertar a alegria do silêncio do pai. Cantei uma música que - já naquela época - parecia bem antiga, mas que tocava nas rádios anunciando os carnavais. "Eu vou pra Maracangalha, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou. " Isso era tudo o que eu sabia e sei ainda hoje daquela música, fato que me fez repetir inúmeras vezes a estrofe, à tristeza (ou à náusea) em meu pai. Eu também vou pra Maracangalha um dia, ele disse, olhando para a distância onde havia sumido o caminhão da olaria. Vou ter um caminhão. Sair por este mundo, conhecendo lugares e gentes. Então era isso, o pai queria viajar o olho triste dele nos vermelhos das estradas. Encalhar nas areias das praias, nas bocas dos rios, quando a maré enche e eles se encontram com o mar.

Fiz o que sempre faço, quando não sei o que dizer: canto. Por mim, ou pelo outro. Naqueles dias, o telheiro ficando pronto, o pai pareceu alegrar-se com a minha Maracangalha. Nunca teve o seu caminhão de sair pelo mundo, mas estava mais alegre. Numa das intermináveis cantorias, lembro de tê-lo visto falando ao tio que o ajudava: ela é semitonada.

A delicadeza do caminhoneiro impedia-lhe de chamar a filha de desafinada. Este sinônimo, só vim a conhecer muito tempo depois, a palavra martelando os pregos de desentortar na memória.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Menina e Borboletas

(ilustração: Márcia Cardeal. Meu presente de aniversário :-))

Por volta do quinto dia Deus, com Seu magnífico condão, tocando as pontas das asas das borboletas que dormiam em minhas línguas, despertou-as para o divino dialeto. Conjugaram voar nas esferas impossíveis. Assim como nasciam-me das fendas, escorregavam pelas pontas dos dedos. Brancas, alvas, lunares. Revoavam em torno das gavinhas dos cachos, por vezes enroscavam-se neles. Depois subiam. Ganhavam a imensidão e ficavam azuis.

Deus, então, dormia com Seu condão de gerar estrelas, e línguas e borboletas anís.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

Dados

(para F., que me presenteia
com suas porções mais interessantes)

Eu jogo dados

com Deus
e eles sempre
caem
do mesmo
lado.
Viciados Fatos
Pinto e bordo
nos precipícios
sou border
em qualquer
linha.
Minha cabeça
nem sempre pensou
melhor
sozinha.

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Canion



Esgarçar os ouvidos do eco
para ver de que escarpa
nasce o grito

Cuidar de não ferir o limo
quando a pedra falseia
sob o pé

(É de Deus proteger
aos inconseqüentes)

Transfixar espinho
não aprimora
o canto.

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Pedras

Não importa quantas pedras
se coloquem sobre o passado:
elas não esmigalham a memória.
Quando era criança
o pai enterrou bem fundo
a morte do meu primeiro cão.
Coloquei sobre o monturo
de terra uma pedra
branca e uma flor.
- Chora, minha filha, chora.
Só as lesmas se derretem
com o sal.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

Mau Humor





O meu humor

anda tão mau,

amor.

Por mal de amor.

Terça-feira, Janeiro 03, 2006


Aprendeste a beijar-me
como quem teme assustar.

Minha testa ainda fecha
os olhos para sorrir.

É da natureza da tua lágrima
se dependurar.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

Feliz 2006

Continuo devendo à vida, aprender a surfar. Continuo longilínea. Continuo detestando os meus pecados no outro. Continuo distraída. Continuo tímida de desviar os olhos e não guardar faces. Continuo me perdendo ao dar a volta na quadra. Continuo usando pouco perfume. Continuo sangrando no corpo a ferida da alma. Continuo temendo envelhecer sozinha, a casa sobre o rochedo, o mar embaixo. Continuo sabendo que a morte definitiva não chega antes. Continuo procurando notícias tuas na primeira música que tocar no rádio. Continuo prestando atenção nos números das placas. Continuo usando pouca jóia. Continuo impulsiva. Continuo chorando no chuveiro. Continuo me fazendo de forte. Continuo generosa com as verdades que o outro prefere contar. Continuo compreensiva com as minhas mentiras. Continuo dividida em partes desiguais. Continuo comendo mais na emoção e emagrecendo demais na ansiedade. Continuo preferindo vinho à cerveja. Continuo tomando whisky com duas pedras. Continuo não sabendo ser elogiada. Continuo cantando para ti. Continuo saudando as manhãs antes que o sol acorde. Continuo tendo insônia asma medo de barata. Continuo obsessiva em ordenar fora a bagunça que vai por dentro. Continuo arrumando guarda-roupas quando estou triste. Continuo procrastinando deveres. Continuo antecipando prazeres. Continuo avessa à hipocrisia. Continuo me enganando. Continuo precisando fazer plástica ginástica botox. Continuo achando desimportante. Continuo me achando feia. Continuo sabendo que o Amor não escolhe pela cara. Tampouco pela outra. Continuo projetando nas coisas os meus sentimentos. Continuo esperando. Ano que vem, aprendo a surfar. Continuo acreditando em final feliz.

Devo este mote ao Fabrício, a quem admiro. Quando crescer, quero tentar aprender a escrever como ele. Continuo delirante.

Conserva

Conserva de tempo, sal dos milagres. A vida te manteve intacto. Nem outras mãos fenestraram teus espaços, nem outras vozes te devolveram os ecos. Lenho petrificado, permaneceste em mim, pedra da vida. Teus lugares, cada um em suas coisas. Conserva de tempo, sal dos milagres. Os mesmos modos de acolher depois de julgar antes, a mesma grande generosidade (mal) disfarçada, a falta de hesitação na ponta da língua: primeiro deslava, depois nunca conserta. (Tenho nas pontas dos dedos essa mesma agonia). A risada. Milagres do tempo conservaram teu sabor muito depois de passadas as estações. Preservado. Intacto. Agridoce. Pelas pontas da língua ou pelos lados da memória.

Quarta-feira, Dezembro 28, 2005

Peneira




Descobri que não sei escrever sem a peneira dos teus olhos.

É ela quem silencia o excesso de luz e filtra o tom do que preciso dizer.
Descobri que não consigo prescindir da força da tua voz.
Mesmo quando fere, a tua voz. Mesmo quando me toma
de alguma insensatez em dias desavisados de estio,
a tua voz, e ela sempre me toma. Mesmo quando
- ouvidos corrompidos - imagino ter perdido todos os significados.
Resignifica de um todo, a tua presença de olhos e voz.

Nada deveria precisar ser dito. Ainda assim, preciso tanto.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

Pacíficos Silêncios

Redemoinham silêncios de todas as ordens. O entorno é claro e frio e limpo. A casa, vazia. Porque não estás e por tantos outros nãos que não quero explicar, sobram os olhos cinzas-Pacífico de teu cão. Pacífico, sim, como o oceano cinzento no qual catei um dia uma pedra branca angular e fundamental feito a saudade que me moveu e me move. Pacíficos cinzas, tem teu cão. Os olhos de uma parcimônia infinita em evocar rumores, apenas acolhem os meus. Cão chora? Acho que não. O focinho é gelado quando esfrego o meu, a ponta ainda acesa. Será que cão percebe quando o nariz da gente está vermelho e quente e por isso tenta ficar perto, desse jeito de gente que sabe que basta encostar bem para a dor passar? Cão talvez chore um aguaceiro por dentro, quando não estamos, imaginando que possamos precisar de seu conforto de veludo cinzento.

Não fala o silêncio da casa de qualquer ausência. (Silêncio é sempre tempo de outras escutas)Torvelinham, isso sim, as vozes que nunca calam. Benditas vozes. Bem-vindas, vozes da Vida. Povoem de suas presenças este tempo de esperas e desejos de outras felicidades.

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

Noites Pressentidas

Tenho medo de sombras e escuros. Tenho medo de viagens astrais e sobretudos dependurados atrás das portas. Ao deitar, escondo as chinelas, para que minha alma - sem penas - não resolva vagar na noite, deixando-me a falar, insana e sozinha. Ou, o que é pior, conversando com os que já saíram antes.

Ainda ontem sonhei com escuros animais. Acordei e uma cobra verde habitava o meu quintal. Que se escondam todas as cobras. Haverá frestas de tijolos para todas. Mas não me invadam os sonhos, que a noite ainda nem começou.

E tenho medo das noites assim, só pressentidas.

Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

Para o ano vindouro

Não quero a complacência das cores pastel.
Não me dê a veemência das certezas
que não confortam em nada,
apenas anestesiam a vontade
que o medo empresta às pernas.
Não quero o apoio das redes.
Permita-me cair até as profundezas
intragáveis de mim.
Não me tire as sombras
de baixo da cama.
Deixe entre as paredes, os esqueletos
não corrompidos pela chuva diuturna.
O que quero, mesmo,
é o medo.
Não me desfaça do segredo
que o tempo não conta.
Não sinto por mim, mas pela ânsia
que a vida me empresta.
Não me tome dela, por favor.
Não me tome dela.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Chapéu

Plano, o assoalho da nau
não rompe as vagas,
senão que, antes, as alisa.

(os deuses não devem ser acordados)

O catamarã avança, avisa
ter chegado ao fim, o verão.

Um pouco mais bruto,
um vento de fim de estação
leva meu chapéu.

(é tão estranho, perco um destes, a cada ano)

Agora, no mar flutua,
embarcação emborcada, palhas
e conchas a afastar-se.

Se Netuno o queria
- tributo aos caminhos atravessados -
por quê, então, não teve
a ousadia de pedi-lo?

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Lonely

Quando as tenras folhas do rebento pediram por outros ventos, levou-lhe, asas e folhas, ao aeroporto.
Todas as recomendações (re)feitas, beijou-lhe a bochecha branca já no portão de embarque.
- Te cuida, meu.
Mochila nas costas, não voltou-se para um aceno.
No caminho de volta à casa, deu nome às duas lágrimas: Vitória e Despedida.
Ainda cantarolava com voz de pato, o rap preferido dele.
Lonely
I'm Mr. Lonely
I have nobody
all
to my own

Lonely...

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Novembro


Os Guapuruvús
deitam lilases
nas sarjetas.

Tingem o rio.